Opinião

Máscaras pela consoada

Máscaras pela consoada

O instinto para partilhar compotas em vãos de escada está mais apurado do que nunca, sumo-pontífice-geleia da boa vizinhança, a expensas da Direcção-Geral da Saúde.

A bons conselhos do Estado, portugueses vizinhos e familiares, organizaram-se para uma véspera de Natal como nunca antes haviam tido. Até à sugestão de alterar os dias festivos ou suprimir refeições, foi um pulo de rena. Nunca a expressão "o Natal é quando o homem quiser" fez tanto sentido.

Ontem à noite, e hoje durante o dia, meio mundo a fintar as proibições em tumulto interno, jogo do deve e haver implícito à roleta, movimentos de aproximação "allegro ma non troppo", gestão de tempo e de espaço em cercas familiares montadas, um bolo de afectos recheados a receio. Um Natal vivido de faz de conta imposto, em nome de um bem maior.

São os dias de Inverno em que o calor do momento cede à necessidade de os termos aqui. Daqui para a frente. Mas pelos muitos que já cá não estão - quase 6500 pessoas só a expensas da pandemia - ergue-se um simulacro gigante em milhares de famílias. Apela-se à contenção nas demonstrações de afecto mas o coração já terraplanou. Máscaras pela consoada.

O momento de comoção destes dias, contraditório nos termos pela contenção imposta, exige um compromisso de humanidade extra, quase heroico ou sobre-humano. Como se fossemos potenciais invasores do outro, artífices familiares de um mau desenlace em potência. Este contexto faz de nós heróis forjados à força de não quereremos ser vilões. Esse compromisso de exigência acarreta responsabilidade, acerto. Sentimento de equidade, equilíbrio e justeza. É insustentável e indigno que, em nome de interesses ou no observar da mais pura saloiice, as palavras sejam ditas querendo abrir as jaulas às feras, soltando o pior que cada um tem para dar.

Do ser humano. Independentemente de erros de avaliação e dos naturais equívocos de quem lida com o desconhecido, a ministra da Saúde, Marta Temido, é uma figura incontornável na luta contra a pandemia e tem sabido estar, sob enorme pressão, à altura deste tempo de exigência. Quando desmorona em comoção, são os abutres que lhe querem secar as lágrimas. Quando, com estupefacção, um candidato presidencial tem a desfaçatez de afirmar que a cegueira ideológica da ministra causou a morte a 10 mil pessoas, estamos conversados sobre a insustentável não leveza do ser. São também momentos em que caem as máscaras e sem sintomas febris. Esta ignóbil coragem só pode vir da natureza.

Músico e jurista

PUB

O autor escreve segundo a antiga ortografia

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG