Opinião

O apeadeiro do poder

Enquanto Itália se debate com um regresso ao passado, vendo um partido pós-fascista (herdeiro do Movimento Social Italiano, fundado por seguidores do ditador Benito Mussolini) vencer eleições, a controvérsia em Portugal é mais comezinha.

Mas altamente simbólica. Através de voto secreto em urna, uma larga maioria dos deputados insistiu na manutenção do cordão sanitário, impedindo a eleição de um deputado da extrema-direita para a vice-presidência da Mesa da Assembleia da República (AR), negando um capítulo do processo de normalização em curso. Mais um acto frustrado, aí vão três. Nada de anormal para o cargo, tendo em conta que a AR conta com um histórico de mais de 50 eleições falhadas.

Impedir a extrema-direita de se institucionalizar no lugar simbólico que sempre atacou e pretendeu derrubar é uma exigência sanitária para a casa da democracia. Mas qualquer defesa, mesmo a que se impõe, não impede contra-ataques. Ao impedirem a eleição, a Esquerda e parte do PSD prestaram os habituais três serviços à extrema-direita, permitindo-lhes a vitimização, uma nova hipótese de confronto e a fuga às fragilidades que decorreriam de serem obrigados a participar no que abominam. Ainda assim, seria o que sempre fariam, demagogicamente, caso lograssem a eleição. O carácter adaptativo à sem vergonha é um traço do seu temperamento ideológico, táctico e pragmático, instrumentalizando qualquer uma das suas derrotas.

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As vitórias da extrema-direita são sempre o resultado do tónico que o abraço do urso permite. A normalização que perseguem em Portugal, procurando fazer parte de uma solução de governo à Direita no futuro próximo, tem cada vez mais adeptos no PSD de Montenegro, ecoa na liderança parlamentar do partido e em boa parte dos seus dirigentes. Apesar de muitos dos deputados sociais-democratas não terem perdido a noção da autofagia e do perigo de predação por um vizinho não natural, Montenegro prefere alimentar o monstro ao estabelecer um "novo relacionamento" à Direita. Aqueles que no PSD resistem à ideia de um partido refém já perceberam que dificilmente poderão impedir que ele se transforme num apeadeiro da extrema-direita para chegar ao poder.

O esvaziamento eleitoral da "Liga" de Matteo Salvini, devendo ensinar algo sobre a confraternização na Direita não democrática, tem de permitir conclusões aos partidos de centro-direita europeus. Com menos de 9% nas eleições (pouco mais do que a "Força Itália", o partido conservador de Berlusconi), Salvini caiu dos 34% em 2019 (europeias) e dos 28% em 2018 (legislativas) para um lugar na arrecadação do futuro Governo de Giorgia Meloni em Itália. Um país fundador da União Europeia afunda-se pela falta de respostas da classe política, enquanto a liderança de um partido fundador da democracia portuguesa parece gostar de votar para ver no que dá.

Músico e jurista

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