Opinião

O Diabo não veste "hijab"

O Diabo não veste "hijab"

Agora mártir, Mahsa Amini morreu para que as mulheres possam usar o véu, querendo. E essa vontade, simultaneamente última e primordial, acto de escolha e de liberdade, é apenas matéria de dignidade e de direitos humanos. Não de ponderação de costumes ou de religião. Nem permite qualquer relativização. Identifica a misoginia, aqueles que punem pela hierarquia dos costumes duma suposta superioridade moral. Distintas entre seres humanos em razão do género, a obrigatoriedade e a imposição são inultrapassáveis e indefensáveis do ponto de vista societário. Confundir isso com respeito é achincalhar a civilização, seja qual for a forma e matéria da mesma.

O mal não pode residir no tamanho ou no acerto da colocação do véu, nem no comprimento ou largura da roupa, por mais incolor ou "technicolor" que se exiba. O mal reside no ditame que dá o que é certo ou ajustado como uma verdade de grandeza absoluta, inexorável, axioma de exigência, imposto e patrulhado, cuja infracção pode ser punida até à morte. A breve passagem de Mahsa Amini, mulher curda de 22 anos, por Teerão, onde procurava visitar familiares na companhia do seu irmão, termina na tragédia da sua morte pelo uso indevido do véu e num grito de revolta das mulheres iranianas que, heroicamente, tomam em mãos o destino da mudança social no país, arrancando o "hijab", queimando-os como antes outras mulheres incendiaram soutiens, cortando o cabelo, carregando coragem e simbolismo, sinal indiscutível de uma força que nenhuma imposição ou prepotência pode elidir. Fazem a sua revolução, aquela que a "sharia" da Revolução de 1979 lhes suprimiu.

A onda de solidariedade internacional com os protestos no Irão, já com um número considerável de mortos, não pode ser encarcerada dentro do espartilho da política. As trincheiras, cavadas e de cultivo pessoal para tantos que abusam das questões societárias para plantar Dante e Maquiavel, devem ser cobertas. A resposta àqueles que asseguram que o Diabo não veste "hijab" não pode ser a desqualificação do véu islâmico como uma prerrogativa de respeito pela vontade das mulheres que o pretendam usar. A dicotomia entre os bons e os maus, entre o bom ou mau cristão, ou o bom ou mau muçulmano, é a mais perversa alucinação que sustenta e alavanca as mais terríveis atrocidades. É na luta pela liberdade, sobretudo pela liberdade de não acreditar nem aceitar, que reside a fé nos homens. Mahsa Amini não morreu para isso, nem há mártires desejados. Mas as mulheres iranianas têm agora um rosto e a luta delas é a nossa.

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o autor escreve segundo a antiga ortografia

*Músico e jurista

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