Opinião

Os heróis que escolhemos ter

Os heróis que escolhemos ter

Os heróis representam-nos. São a glorificação do nosso bem maior, do que temos de melhor, o orgulho que podemos lançar como carta afectiva. É também por isso que representar Marcelino da Mata como herói é um vexame nacional e diz bem da nossa (não) relação com a História.

E nesta relação, não há sequer acerto nos ponteiros da cronologia: Portugal tem uma não relação com a sua História mais antiga e com a sua História mais recente. Pura e simplesmente, adere a narrativas. Não a quer pensar, não a reflecte, não a coloca em perspectiva. Quando muito, relativiza-a. E descola dos factos.

O tenente-coronel Marcelino da Mata é um criminoso de guerra. O que não o impediu de ser um dos militares mais condecorados de sempre, receber comendas e uma mensagem laudatória do ministro da Defesa pelo falecimento, assim como a presença do presidente da República, entre outras figuras maiores do Estado, no seu funeral. Quase toda a Direita portuguesa não poupou elogios ao homem que massacrou e torturou centenas de combatentes na Guiné, criminoso de guerra à luz de qualquer Convenção Internacional. O homem que, num depoimento dado a José Barahona, no documentário "Anos de guerra - Guiné 1963-1974", descreve com garbo como torturou e assassinou um inimigo, cortando-lhe o pénis e colocando-o na própria boca. Não sejam sensíveis. Sejam heróis.

O armário estava mesmo cheio, percebe-se agora. Decerto que as 15 000 pessoas que se reúnem numa petição para deportar o activista Mamadou Ba (sim, a palavra é "deportar") são as mesmas que nos asseguram que não há racismo em Portugal. É este tipo de conto de fadas que até vai ao Tribunal Constitucional (com uma década em vinha-d"alhos de atraso) pelos escritos do agora presidente João Pedro Caupers. Não é um privilégio nosso, diga-se. Em Espanha, milhares de activistas lutam pela libertação do rapper Pablo Hasél, acusado de injúrias à monarquia nas canções e exaltação do terrorismo. Façam-se heróis.

Não há vacinas contra isto. Milhares de enfermeiros assistem impávidos - mas não serenos - ao desfile contínuo de Ana Rita Cavaco a aprisionar uma Ordem profissional às suas ambições políticas. Agora, a destilar contra a vacinação de Ferro Rodrigues, 70 anos e 2.ª figura do Estado, sugerindo a recusa da vacina em nome e em benefício dos enfermeiros, como se não decorresse das suas funções eximir-se de um comportamento que mais não faz do que aproximá-la a uma "bolsominion" de Almada. Numa pandemia que requer o reforço de recursos e dos laços de solidariedade, não revela a sensibilidade de perceber, em função das necessidades, a importância de lançar mão da contratação de profissionais formados no estrangeiro. A bastonária não perde uma oportunidade para, a cada semana, ser uma "chega" aberta no trabalho a todos os títulos heróico que os enfermeiros nos dedicam, dia após dia. Os verdadeiros heróis.

Músico e jurista

o autor escreve segundo a antiga ortografia

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