Opinião

Os salteadores da vacina perdida

Os salteadores da vacina perdida

Notícias além-fronteiras desenrolaram os fanáticos cristãos-novos da liberdade para extremo regozijo. Segundo a revista "The Independent", Portugal já não é um país totalmente democrático, passando para a categoria de "democracia com falhas". Que isso aconteça muito à custa das medidas restritivas impostas pela pandemia, é servido como o pináculo da catedral para liberalistas que esconjuram confinamentos mas, inversamente, também como alimento fundamental para a saúde pública. O facto da esmagadora maioria dos cidadãos aceitarem prescindir, sem remoque, de parte fundamental dos seus direitos e liberdades em nome da saúde pública, confirma que a covid-19 é um agente agregador e que não está a matar a democracia. Decerto, um "must" para a liberdade que se exige. O grau de solidariedade colectiva não conta para os índices.

Entre a saída de cena do civil Francisco Ramos e a promoção do vice-almirante Henrique Gouveia e Melo, há uma sucessão de sentimentos contraditórios que os números contraindicam a cardíacos. Apesar do abrandamento e de, aparentemente, termos ultrapassado o pico da terceira vaga, continuamos destacadíssimos como exemplo do maior número de novos casos e novas mortes por milhão de habitantes. Enquanto isso, foram administradas cerca de 375 mil doses da vacina, sendo que nem 1% da população recebeu as duas doses devidas, a um ritmo de cerca 10 mil doses diárias. Tendo em conta a meta estabelecida pela União Europeia (UE) ao ambicionar a imunidade de grupo até final do verão, vacinando 70% dos adultos, convém uma entrada a pés juntos no acelerador que aumente seis vezes a velocidade: a este ritmo, só no último trimestre de 2024. Por outro lado, Portugal ocupa o 14.o lugar entre os países cuja população recebeu pelo menos uma dose da vacina e está 1,16% acima da taxa de vacinação na UE. Entre a confiança, o cansaço, o sucesso e as dúvidas, o denominador comum a todo o processo de vacinação na UE é o indiscutível atraso.

Enquanto se discutem os pequenos descuidos e os enormes abusos no processo de administração de vacinas em Portugal, a grande ilusão está na forma misteriosa como as empresas farmacêuticas driblam os acordos firmados, comprometendo a execução dos planos de vacinação dos 27 estados-membros. A possibilidade de vacinas estarem a ser desviadas para Israel, EUA e Reino Unido convoca um Indiana Jones para o jogo dos bons e dos vilões da "Arca da Aliança" em tempo de pandemia. Para que não haja mais uma vacina perdida, não percamos nós demasiado tempo a definir o que fazer com uma vacina (a "AstraZeneca") que nos chega no dia 9, envolta em polémica e restrições em vários países europeus. Um rumo, exige-se, à prova de mais salteadores.

*Músico e jurista

O autor escreve segundo a antiga ortografia

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