Opinião

São precisos dois para dançar a perpétua

São precisos dois para dançar a perpétua

Repousar o olhar nos microdebates entre os candidatos às legislativas pode ser assustador pela facilidade como, com aparente naturalidade, se impõe uma agenda demagógica, populista, racista, persecutória, mentirosa, repleta de ataques à democracia e à divisão dos portugueses entre bons e maus, perante o beneplácito de parte dos jornalistas e comentadores.

Temos, todos os dias, uma janela escancarada para um alfabeto inteiro sobre o retrocesso civilizacional. Mesmo quando a extrema-direita não está no debate, são os seus temas que geram lembrança e discussão, mesmo quando não têm qualquer importância ou dignidade para a vida real dos portugueses.

A cerca sanitária não está a ser erguida pelo jornalismo e pela maioria dos candidatos, que parecem não perceber quão fácil seria dizer "não" a uma discussão que desce todos os patamares de dignidade. Dizer não de vez para evitar o cadafalso. Num deserto de dignidade, crescem sempre endémicas flores de areia. Catarina Martins, Rui Tavares e António Costa têm conseguido ser diferenciadores no debate com o protofascismo.

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Ao invés, assistimos a Rui Rio (no debate com Catarina Martins, até à data o melhor debate sobre as questões essenciais do país) a defender André Ventura relativamente à sua visão sobre a prisão perpétua. É incompreensível. Se há marca de água que ficará para sempre destes debates, será a forma como Rui Rio se sensibilizou para abraçar uma proposta da extrema-direita sobre prisão perpétua, algo que nem a ditadura de Salazar ousou fazer com os portugueses. Portugal, o primeiro país do Mundo a abolir a pena de morte em 1852, é confrontado em 2022 (138 anos depois de abolir a prisão perpétua) com candidatos que querem dançar a perpétua a dois, entre malabarismos e mil formas de nos fazerem acreditar que, sendo necessário, não acabarão nos braços um do outro. Felizmente, o sentimento de rejeição da sociedade civil a temas hediondos é mais duradouro do que 25 minutos divididos por aleivosias a dois.

De algum modo, percebe-se que jornalistas e moderadores tenham tanta ou mais dificuldade em gerir os debates com o populismo do que os próprios candidatos adversários. A raiz para o caos reside nas escolhas editorias das televisões. Fazer micro ou nanodebates de 25 minutos é o maior serviço que a Comunicação Social faz, em liberdade e democracia, ao crescimento da extrema- -direita. Aceitar a sua agenda e replicá-la, diariamente, como porta-chave de temas é gravíssimo e autofágico. Vivem-se os debates como "rounds" de boxe ou "sets" de ténis ou pingue-pongue, onde o vencedor tem de ser declarado pela altura para onde atira as bolas, pelo volume do megafone, pela rispidez dos gestos, pelas frases infantis de agressão de pacotilha, pelo nível do acinte ou da ofensa, pelo "sound byte" vazio, pela vulgarização da demagogia ou eficácia da mentira ou populismo. E aqui, a culpa vive nos braços daqueles comentadores que, valha o que valer e independentemente das regras, entendem que o KO se exige num debate e que só existe quando se leva o adversário, rasgado, ao tapete. A eficácia veste-se, agora, como uma senhora antiga.

*Músico e jurista

O autor escreve segundo a antiga ortografia

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