Opinião

Uma banca de emoções

Uma banca de emoções

Não têm sido tempos fáceis para o sector da banca. Depois dos escândalos financeiros que levaram à nacionalização do BPN, à falência do BPP, à insolvência/recapitalização/venda do Banif, à intervenção do Estado na CGD e à resolução do BES, a comoção dos depositantes e accionistas não tem parado de crescer ao ritmo das falências, perdas, empréstimos e descapitalizações. Sistema financeiro, Banco de Portugal, regulador, comissões de inquérito, todo um novelo de especulação, falta de rigor, crime, favorecimento e compadrio.

À escala internacional, um assalto de muitos milhões para o bolso de alguns. Para milhões de pessoas, um assalto sem mão armada perpetrado pelas zonas cinzentas e permitida pela desregulação do sector financeiro. Nos dias de hoje, dos bancos e de muitos banqueiros, espera-se muita coisa mas não um vendaval de emoções. Pensávamos nós, incautos depositantes de zero de juro à ordem, que as verdadeiras dificuldades eram sentidas por quem não auferia salário para fazer face a todos os dias do mês. A habitação ou a falta dela, o endividamento ou o desemprego, a fome ou a indignidade. No fundo, a impossibilidade, o quase fado da pobreza. Mas não. Faltava a pequena história lusa, a singela contribuição particular de um homem para contar uma grande história de comoção. Ei-la.

Foi por estes dias de Natal que ficamos a saber que há, pelo menos, mais um ser humano que não pode ficar "Sozinho em casa" para além de Macaulay Culkin. Licínio Pina, presidente do Grupo Crédito Agrícola, garantia à sua esposa (desde 2016 até data incerta), uma subvenção mensal de mais de 2000 euros líquidos - paga pelo banco - a título de contributo para a sua estabilidade emocional. Mas faltou à esposa do presidente a estabilidade do conselho emocional que se impunha e para a qual o banco atenciosamente pagava: "não o faças".

Salvam-se bancos, salvam-se homens. "Para o exercício das minhas funções e responsabilidades, necessito de disponibilidade total e, acima de tudo, estabilidade emocional", justificou Licínio Pina. A disponibilidade total para o exercício das funções do presidente era assim garantida pela trave-mestra do seu equilíbrio. E assim foi até cartas anónimas denunciarem esta pequena história de um banqueiro em divã caseiro, acossado pela enorme responsabilidade de fazer o seu trabalho com emoção equilibrada a preço módico. É comovente para história de época e para uma nova dimensão de aforro familiar. Se é verdade que a responsabilidade de gestão de um banco privado deve ser assegurada pelos seus accionistas, também sabemos como se anunciou o fim da história de algumas instituições destes reis magos. Tem custado muito ao Estado e ao bolso de cada um de nós. Há casos que nem Freud explica.

*Músico e jurista

o autor escreve segundo a antiga ortografia

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