Opinião

Uma certeza que seja suficiente

Uma certeza que seja suficiente

Emergência, use mas não abuse. A primeira concretização (porque outras haverá) do histórico, doloroso mas necessário segundo estado de excepção da democracia portuguesa é bem revelador de quanto o Governo dispensava que o presidente da República o tivesse declarado.

A aproximação temerária ao "lockdown" reflecte as preocupações de um Governo em emergência preventiva e que espera para ver. De alguma forma, sendo contemplativos, exerce um princípio de confiança nos portugueses. No reverso da medalha, e como dizia James Carville, assessor da campanha de Clinton em 1992, "É a economia, estúpido". Ninguém duvida das boas intenções mas todos nos questionamos sobre se os recursos e capacidade instalada serão suficientes para fazer face aos picos de Abril e Maio. É também dessa confiança que a economia precisa. Precisamos todos de uma certeza que seja suficiente.

Se exceptuarmos um ou outro discurso de burrice pandémica, o debate na Assembleia da República esteve à altura do momento de calamidade que vivemos. Sente-se alinhamento, consenso e uma perspectiva de resposta comum. É o que se espera de quem lidera e decide, sem negacionismos. O Reino Unido, nos antípodas, persistiu numa política cega de irresponsabilidade, permitindo a propagação do vírus numa dimensão cuja gravidade só apreenderemos daqui a algumas semanas. Tratado de arrogância dos que julgam ser possível pensar só pela nossa cabeça. Agora, encostado à parede pela percepção do desastre, Boris Johnson liga-se à vertigem e tenta inflectir caminho. Sente-se o desespero dos cidadãos britânicos, num ensaio sobre a perplexidade, a questionarem se as medidas e o caminho tomado pelo Governo têm, pelo menos, alguma base científica. Mas o mais assustador são os números. Negação da realidade, é isto.

Se fisicamente devemos usar de distanciamento social, racionalmente devemos fazer precisamente o contrário: exercer pensamento de proximidade, ensaiar lógicas de reflexão comunitária, não ceder a experimentalismos negacionistas que nos arrastem para o exemplo-a-não-seguir. Sendo um dos últimos países europeus a assinalar casos de infecção, o destino entregou-nos a oportunidade de começar esta corrida no carro-vassoura. Temos condições para evitar o pelotão da frente dos números de mortalidade na Europa, caso saibamos olhar para os exemplos de Itália e Espanha, China e Macau, e aprender com isso. As curvas não mentem e as injecções à economia também não. Teremos de decidir se os estímulos à economia são menos para confiar do que os apelos à confiança. A Itália injecta 2% da sua percentagem do PIB na actividade económica, comparativamente aos 20% de Espanha. Onde pode ficar Portugal, quando já se percebeu que esta crise não é igual para todos?

Músico e jurista

o autor escreve segundo a antiga ortografia

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