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Opinião

A falsa escolha entre a pandemia e a economia

A falsa escolha entre a pandemia e a economia

Tem-se vindo a consolidar a ideia de que temos de escolher entre morrer da pandemia ou morrer da crise. O controlo da pandemia estaria a causar danos económicos e sociais superiores aos próprios danos da pandemia.

A "cura" acabaria assim por matar mais que a própria doença. Os dados não confirmam esta tese. Longe disso. Os países que melhor têm conseguido controlar a pandemia são aqueles onde o impacto económico e social (medido pela queda do PIB ou do consumo) é menor.

O exemplo mais utilizado para alimentar este equívoco é a Suécia que adotou uma política muito menos restritiva no controlo da pandemia. Isto conduziu a um número de casos e mortos muito superior à média europeia. Alguns acreditavam que essa abordagem pudesse trazer algumas vantagens económicas. Não foi assim. É verdade que a Suécia teve uma queda do PIB mais pequena que economias como a portuguesa ou espanhola (muito dependentes do turismo).

Mas, comparada com os seus vizinhos, que adotaram políticas mais restritivas e controlaram melhor a pandemia, a Suécia teve pior resultado económico. A queda do PIB sueco no segundo trimestre foi de 8.6%, superior à queda na Dinamarca (7.4%), Finlândia (3.2%) ou Noruega (5.1%). As medidas mais restritivas adotadas nestes países não só controlaram melhor a pandemia, poupando vítimas (a mortalidade por covid na Suécia é 10 a 20 vezes superior à dos seus vizinhos) como conduziram a um melhor resultado económico.

Dito isto, ainda é cedo para juízos definitivos. Pode ser que a abordagem sueca lhes permita ter criado as condições para não terem uma segunda e/ou terceira onda (têm menos casos que outros países nesta fase) e que, no final, os números de vítimas e da economia lhes venham a dar razão. Para já, não é assim.

É fácil perceber porquê. Quanto mais descontrolada estiver a pandemia maior a percentagem de recursos (humanos, físicos e financeiros) que são desviados de outras atividades. E sem controlarmos a pandemia não restabelecemos a confiança necessária à retoma do consumo e do investimento.

É por isso que o melhor que podemos fazer para salvar a economia é controlar a epidemia. Isso não quer dizer que também não seja importante como a controlamos. Se a conseguirmos controlar eficazmente de formas menos restritivas dos comportamentos essenciais à atividade económica isso será seguramente melhor. Isso depende de nós. Da nossa responsabilidade coletiva.

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Mas depende também do Estado. Da capacidade que este tiver de rastrear cadeias de contágio, ser cirúrgico, mas eficaz, nas restrições que impõe e facilitar a deteção precoce (como já está a acontecer noutros países, com testes rápidos facilmente acessíveis aos assintomáticos, ainda que menos fiáveis).

*Professor universitário

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