Opinião

A nova austeridade

A nova austeridade não se chamará austeridade. O primeiro-ministro anunciou isso ao país quando prometeu que não haveria austeridade.

É complicado prometer aquilo que não depende apenas de nós. A austeridade não é uma escolha, mas a consequência da falta de dinheiro. Foi assim a partir de 2010: sem dinheiro para fazer face às nossas despesas e sem o mercado nos emprestar, restou recorrer ao auxílio financeiro europeu com a austeridade que isso exigiu. Só pudemos começar a inverter a austeridade quando reconquistámos a credibilidade necessária para nos poder financiar de novo nos mercados e deixámos de depender desse auxílio. Acontece que a fragilidade da nossa recuperação e consolidação orçamental fazem com que a nossa capacidade de intervir na economia para promover a retoma económica seja limitada. Foi isso mesmo que reconheceu o ministro da Economia quando disse que não tínhamos condições para dar os mesmos apoios que outros países e que "mais despesa hoje são impostos amanhã". Também podia ter dito: "mais dívida hoje são impostos amanhã".

E iremos ter muito mais despesa e dívida. Não me interpretem mal. Se há momento em que faz sentido despender mais e endividar-nos para isso é numa crise como esta. O PM tem razão quando diz que a origem desta crise é muito diferente da anterior. Esta não é uma crise proveniente do desequilíbrio das finanças públicas. É uma crise de liquidez na economia e de paralisação de boa parte da procura e da oferta, que exige uma forte intervenção do Estado. Mas não nos enganemos, nem enganemos os portugueses, essa intervenção vai ter um custo. A primeira forma de austeridade está, aliás, nos limites daquilo que o nosso Estado pode fazer, como reconheceu o ministro da Economia. O apoios na Alemanha, por exemplo, são mais de cinco vezes superiores aos previstos em Portugal. Como escreveu Ricardo Reis, é o possível num país que não conseguiu construir uma almofada financeira.

Mesmo com essa intervenção mais limitada, as previsões indicam que a nossa dívida deve crescer entre 10 a 20% do PIB. Temos de ter consciência do que isso pode significar em termos de austeridade no futuro. Muito dependerá de até quando o BCE e a União Europeia nos garantirem financiamento a baixo custo. Não será para sempre.

Finalmente, não podemos confundir ausência de cortes no Estado com ausência de austeridade na sociedade. Um estudo da Universidade Católica indicava que um terço dos portugueses já tiveram cortes no rendimento e o desemprego irá crescer exponencialmente. Para todos estes portugueses não interessa se vão ou não chamar a isto austeridade.

Professor universitário

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