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Opinião

A tragédia

8831 foi o número de vítimas mortais dos 13 anos da Guerra Colonial (4027 das quais mortos em combate, a sua grande maioria recrutados nas próprias colónias). Este fim de semana os mortos por covid irão, com toda a probabilidade, ultrapassar este número.

Se não nos cingirmos aos mortos atribuídos diretamente à covid, mas, como faz o "Financial Times", olharmos para o excesso de mortalidade (presumindo o FT que este excesso resulta da pressão colocada nos sistemas de sistemas de saúde pela pandemia), o número de mortos é de mais do dobro daqueles. Portugal é, aliás, como já aqui escrevi, um dos países onde o excesso de mortalidade mais supera o número de mortos atribuídos à covid.

Impressiona a resignação com que o país aceita estes números (três tragédias diárias de Entre-os-Rios). Temos sido, nos últimos dias, o terceiro país do Mundo com mais infetados e o quinto em número de mortos. Como quase sempre, a ausência de informação, debate e escrutínio que precedeu estes números são agora substituídos por recriminações, transferências de responsabilidade e o spin habitual.

Mas não se retiram consequências quanto à qualidade dos nossos processos de decisão e escrutínio. Basta olhar para a ausência de debate, justificação e escrutínio sob os critérios de vacinação.

Esta tragédia não se distribui de forma igual. 2/3 dos mortos têm mais de 80 anos. Como escreviam esta semana, num artigo no "Público", Maria do Céu Machado e Maria de Belém Roseira (duas pessoas insuspeitas de qualquer instrumentalização política), não é compreensível que este grupo, o de maior risco de todos, vá ser vacinado quase ao mesmo tempo dos seus netos.

Os critérios portugueses estão em desacordo com o adotado na grande maioria dos países europeus. No final de dezembro, o Centro Europeu para a Prevenção de Doenças publicou o seu relatório sobre o tema. As conclusões são claras na prioridade que deve ser atribuída aos grupos mais idosos (estejam ou não em lares). Esta é a abordagem que mais vidas salvará de acordo com o relatório.

Este reconhece que outros critérios podem ser usados, como o número de anos de vida (salvar menos gente, mas mais jovem, poderia representar um maior número de anos de vida). Mas esta é uma escolha ética fácil: uma vida não vale mais por a sua expectativa de vida ser maior. O que é extraordinário é a ausência de debate e escrutínio sobre estes critérios.

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O presidente da Comissão de Vacinação recusou responder sobre o tema. Os dados científicos são conhecidos. As escolhas éticas são nossas. Um país que não discute e não escrutina estas questões é ele mesmo uma tragédia.

*Professor universitário

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