Razão Prática

Como lidar com o extremismo

Como lidar com o extremismo

Aqueles que, como eu, acreditam que a política deve procurar reconciliar interesses e visões diferentes do bem comum assistem com enorme preocupação ao crescimento do extremismo político. Este concebe a política como um combate entre duas conceções irreconciliáveis da sociedade. Frequentemente, o outro lado é apresentado como não representando nem agindo em nome do povo, mas sim como estando ao serviço de interesses obscuros e minoritários (sejam eles as elites, a finança, os imigrantes, etc.). É fácil ver como esta conceção da política pode facilmente descambar no autoritarismo no seu exercício. Essa contraposição justifica tudo a um lado contra o outro. Mas para lá deste risco, uma democracia contaminada pelos extremismos é uma democracia polarizada e radicalizada em que a função de reconciliação de interesses diferentes se torna impossível.

Perante isto, temos assistido na Europa a um longo debate sobre como lidar com esses extremismos. A abordagem mais comum, à esquerda e à direita, tem sido a de trazer os partidos extremistas para o arco da governação, justificando com a necessidade de os moderar (a tese do "abraço de urso"). Há até exemplos, que alguns convenientemente esqueceram nos últimos dias, de partidos de esquerda que fizeram ou procuraram fazer coligações com partidos de extrema-direita (os socialistas na Áustria ou o Syrisa na Grécia). Não demonizo quem o faz, pressionado pela necessidade de ser alternativa política e/ou acreditando que consegue controlar esses partidos extremistas. Mas essa abordagem tem sobretudo contribuído para o crescimento desses partidos e o reforço da radicalização do sistema político. O efeito é mais de contaminação do que de moderação. Se olharmos para países que nos são próximos, os partidos tradicionais do centro-direita e centro-esquerda desapareceram ou estão em risco depois de alianças com esses partidos. Acedem ao poder e passam a ser os "ursos".

Combater todos os extremismos não implica desvalorizar o diferente grau de risco que comportam. Essa é também uma questão muito determinada por diferentes contextos históricos: os limites do discurso político e a perceção das ameaças democráticas depende muito de o país ter na sua história uma ditadura de direita ou de esquerda. O que é comum é que há hoje um forte risco de contaminação do espaço moderado pelos diferentes extremismos. Entre nós, a transformação em 2015 da prática política do nosso regime reforçou o poder dos extremos no nosso sistema político. Mas se podemos responsabilizar António Costa por ter facilitado a radicalização do sistema político, será sempre nossa a responsabilidade se nos radicalizarmos.

*Professor Universitário

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