Opinião

A democracia em crise

Vivendo em Itália, muitos me perguntam o que irá acontecer com a atual crise política. Tenho apenas duas certezas: que com a política italiana tudo é possível e que tudo que acontece em Itália acontece depois na Europa.

A Itália sempre foi o laboratório político da Europa. Quase todas as experiências políticas italianas foram replicadas no resto da Europa.

A atual situação política italiana é uma crise da democracia. O combate à corrupção política nos anos 90 implodiu com os partidos tradicionais (democracia-cristã, socialista e comunista), mas não substituiu grande parte da sua classe política nem a cultura política dominante. Mesmo Berlusconi assentou o seu projeto e prática do poder nessa classe e nessa cultura. A verdadeira revolução é recente. Está ligada ao sucesso de novas formações e atores políticos que tiram partido de duas transformações estruturais na política. A primeira resulta da transformação tecnológica. Esta muda a forma como nos informamos e deliberamos politicamente.

Temos hoje acesso a muito mais informação e a novas formas de nos organizarmos e participarmos. Mas isto também fomenta formas de conhecer e decidir mais rápidas e emotivas, menos racionais. A ciência do comportamento tem vindo a demonstrar que muitas destas irracionalidades estão relacionadas com a velocidade a que decidimos ou com uma falsa presunção de conhecimento. Tendo hoje mais acesso a informação achamos que temos mais conhecimento, mas nem sempre é assim. Informação e conhecimento são coisas diferentes. Antes íamos ao médico e depois fazíamos o que este nos dizia, hoje vamos ao médico e a seguir vamos ao Google controlar o seu diagnóstico... É ainda pior com a política (porque, mesmo assim, continuamos a confiar mais nos médicos do que nos políticos...).

Os cidadãos perderam a confiança nos mediadores tradicionais da política, como partidos, jornais, sindicatos. Mas as novas formas da política são ainda uma ilusão de conhecimento e poder, facilmente manipulável. Esta manipulação tira partido da segunda mudança estrutural. A democracia assenta na ideia de autogoverno. Mas num Mundo interdependente este autogoverno está em crise nas democracias nacionais.

O que acontece dentro das nossas fronteiras depende tanto das nossas escolhas como das escolhas dos outros. Aqueles que exploram politicamente isto fazem-no pretendendo que podemos regressar a esse autogoverno nacional sem perder as vantagens decorrentes do Mundo interdependente. Oferecem-nos assim apenas culpados, não soluções. A crise italiana é resultado disto e antecipa aquilo com que nos confrontaremos todos se não encontrarmos soluções para a crise das nossas democracias.

*Professor universitário