Opinião

A família

No final da primeira temporada de Borgen (famosa série sobre política dinamarquesa) o marido da primeira-ministra (PM) é obrigado a deixar o emprego quando a PM descobre que a sua empresa é fornecedora de uma outra empresa com quem o Estado celebrou um contrato.

Questionada sobre o sacrifício profissional do marido, a PM responde que as decisões do Governo têm consequências para todos, incluindo o seu marido.

Não é fácil prevenir o uso indevido de laços familiares sem penalizar alguém injustamente por esses laços familiares. Nomeações de familiares são suspeitas. Mas também conheci pessoas injustamente acusadas de terem determinado emprego por serem filhos de A ou B. E é comum os filhos seguirem as pisadas dos pais. O meu pai era político e faleceu quando eu tinha 15 anos. É pouco provável que isso tenha determinado a minha recente experiência governativa mas é bem possível que tenha suscitado em mim um interesse na política que apenas se concretizou 30 anos mais tarde.

É com esta preocupação que penso na composição "familiar" deste Governo, talvez o primeiro no Mundo com um casal, pai e filha. Não é nepotismo. Este existe quando se nomeia os seus familiares, como Trump fez na Casa Branca (mas também John F. Kennedy, nomeando o irmão procurador-geral). António Costa não é familiar daqueles que nomeou. Mas o problema não se esgota aqui. Quando procurei saber de precedentes junto de colegas estrangeiros a reação foi de choque. Disse-me um: não está em causa o possível mérito dos selecionados, mas sim a restrição do universo de seleção. Uma tão elevada concentração familiar significa que alguns têm mais oportunidades de demonstrar o seu mérito do que outros. Como tantas vezes entre nós, é uma seleção limitada aos próximos. Há uma palavra inglesa para isto: cronysm. Talvez o mais revelador seja que não exista tradução em português... Não está em causa o mérito dos escolhidos, mas o não reconhecimento do mérito de outros. É uma elite familiar a governar um país. E traz consigo um conflito de interesses. Um Governo não é uma coleção de ministérios. É um órgão coletivo. Cada ministro tem de se pronunciar sobre as propostas dos outros. Existe um conflito de interesses quando temos de decidir sobre algo que afeta o interesse de alguém com quem temos uma relação pessoal ou profissional. Teremos agora pai, filha e cônjuge a pronunciarem-se sobre as propostas uns dos outros...

Não é saudável. Querem ter o mesmo percurso? Escolham organizações diferentes ou esperem alguns anos. As melhores práticas públicas têm, por vezes, consequências negativas para os familiares...

*PROFESSOR UNIVERSITÁRIO