Opinião

Hello, hello, senhor presidente

Hello, hello, senhor presidente

Não me choca que o presidente da República participe num programa televisivo de entretenimento.

Acontece noutros países e com cada vez mais frequência (Obama foi a talk shows humorísticos). É compreensível que os políticos usem formas diferentes de se dar a conhecer aos cidadãos (ainda que seja controverso que partes da esfera privada de um político devem ter relevância pública). Marcelo já tinha aliás dado uma entrevista ao programa da manhã de Manuel Luís Goucha na TVI. Invocou até essa circunstância para justificar a chamada para o programa de estreia de Cristina Ferreira na SIC. E há quem tenha entendido esta participação como uma resposta à presença do neonazi Mário Machado no programa da TVI. Marcelo estaria a combater o populismo com as suas próprias armas. Ainda assim, não gostei da intervenção do presidente. Primeiro, porque instrumentalizou um gesto privado, procurando dele tirar partido público. O que o presidente fez foi uma chamada com conteúdo privado: desejar boa sorte a alguém que tratou como uma amiga. Podia tê-lo feito de forma privada ou poderia ter participado no programa. Mas a transformação de um momento privado em espetáculo público é diferente. É sempre uma manipulação. A identificação com o povo tem de ser genuína para não ser uma forma de demagogia (como a fotografia de António Costa a ir até uma loja do cidadão num autocarro da Carris...). Os riscos inerentes à enorme proximidade e afetividade que caracterizam a presidência de Marcelo são controláveis enquanto ela for genuína. Aqui não foi.

Mas há um segundo problema que o presidente deveria considerar antes de multiplicar estas intervenções que esticam as formas e fronteiras da comunicação política: legitimar e promover os meios de ação política mais favoráveis aos populistas que ele próprio diz combater. Os novos populistas querem promover a sua mensagem fora de qualquer contraditório, sem terem de argumentar contra uma posição contrária ou provar os factos que invocam. É por isso que tantos se recusam a dar entrevistas ou mesmo a falar para os média tradicionais. Comunicam onde controlam totalmente a sua mensagem e agenda, nomeadamente as redes sociais, onde falam apenas e só do que querem. As TV apenas servem para os humanizar, em programas de entretenimento, mas não para os escrutinar, em programas de informação. Quando existem tantos apelos perigosos à censura, seria mais importante começar por recusar amplificar mensagens políticas que não se sujeitem ao contraditório. Neste contexto, o presidente da República, que tantas preocupações exprimiu com o futuro da democracia, devia ter como prioridade valorizar as formas de comunicação política que envolvam contraditório e escrutínio e não aquelas que permitem evitá-lo.

*PROFESSOR UNIVERSITÁRIO

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