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Opinião

Silly season

Esta é a altura da silly season (a época "tonta" ou "parva"). Fiquei surpreendido quando descobri que se trata de uma expressão que remonta a meados do século XIX, no Reino Unido, fazendo referência ao período do ano em que o Parlamento encerra. Desde então o termo expandiu-se a outros países. A ideia é que, na ausência de verdadeiros factos políticos, devido às férias, se alimentam artificialmente factos sem interesse.

Na sua origem, a expressão silly season é assim, e por contraste, uma expressão de valorização da política: a polítca, fora das férias, só se ocupa de coisas sérias e de forma séria... Hoje, muitos considerariam esta forma de ver a política algo... silly. Silly season é todo o ano.

Não devemos é confundir silly season com coisas pouco importantes. Há coisas tontas que são profundamente sérias. E há coisas sérias tratadas de forma tonta. Da mesma forma que não podemos presumir que alguém que se leva muito a sério é alguém sério, não devemos confundir a pompa e solenidade com seriedade. Ainda ontem ficámos a saber que o anúncio solene, pelo Ministério do Planeamento, de 58 km de obras na linha do Douro afinal são apenas 16. Isto prova que a silly season tanto traz coisas tontas como coisas em que nos parecem querer fazer de tontos.

Quando o vereador do Bloco de Esquerda, em Lisboa, Ricardo Robles decidiu fazer um investimento imobiliário altamente lucrativo, é duvidoso (assumindo a sua legalidade) que tenha feito algo tonto. Mas quando, tendo feito vários apartamentos entre 30 e 50 m2, nos procurou convencer que não os pretendia dedicar ao alojamento local, só podia estar a pensar que éramos tontos. E quando Catarina Martins veio defender que não existia uma contradição política estava a querer fazer de nós tontos. Não é que os membros do BE não possam agir de acordo com leis e políticas que eles próprios contestam. Podemos discordar de certas políticas sem perdermos legitimidade de tirar tanto partido delas como qualquer outra pessoa. O problema é que o juízo do Bloco não é apenas sobre as políticas. O Bloco critica moralmente o comportamento dos que tiram partido dessas políticas. O Bloco não crítica apenas a especulação, mas os especuladores. Não se limita a defender a redução das margens de lucro, critica quem obtém esses lucros. É nesta superioridade moral pessoal, convertida em superioridade política, que o Bloco assenta. É por isso que esta estória tonta merece ser tratada de forma séria. A lição não é que devemos retirar a moral da política. As consequências morais e éticas das políticas são relevantes. E algo ser legal não proíbe um juízo moral. Mas é perigoso quando se invoca uma superioridade política com base numa suposta superioridade moral pessoal.

PROFESSOR UNIVERSITÁRIO

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