Opinião

Marega colocou-nos frente ao espelho

Marega colocou-nos frente ao espelho

Não tivesse Marega abandonado o terreno de jogo e o país não se teria indignado com o racismo de que foi vítima.

Teria sido "apenas" mais um episódio de provocações e insultos que, infelizmente, trataríamos como normal no futebol.

Foi o gesto radical de Marega, e a surpresa de todos perante isso, que nos obrigou a levar a sério o que se passou. Ainda assim, alguns tentaram esse regresso à normalidade. Seria a habitual reação de uma claque perante um golo celebrado por um ex-ídolo do clube. Só que uma ofensa que use de forma pejorativa a raça de alguém é uma manifestação de racismo. O racismo é o tratamento preconceituoso de alguém com base na sua pertença a uma raça. Quando a ofensa se faz através desse tratamento preconceituoso é uma ofensa racista. O facto de atletas negros serem bem tratados, e até idolatrados, por essas mesmas pessoas não exclui o racismo, antes o confirma. Demonstra que o facto de conseguirem ultrapassar esse preconceito em relação a algumas pessoas dessa raça não os leva a ultrapassar o preconceito em relação à própria raça. É isto que sentem os que são vítimas de racismo. Que são parte de um grupo que tem de ultrapassar um preconceito de que os outros não sofrem. Podem até ocasionalmente ultrapassá-lo, mas ele está sempre lá. Foi isso que sentiu Marega.

Se o que se passou faz de Portugal um país racista é uma conversa sem grande sentido. Portugal já foi um país racista, quando teve políticas discriminatórias com base na raça. Hoje não é o caso, mas ainda temos pouca diversidade racial nas nossas elites (apesar de um PM de origem indiana e de uma ministra de origem africana). Isso deve preocupar-nos, embora, provavelmente, seja mais resultado da fraca mobilidade social no país do que de políticas racistas que não me parecem existir. Portugal é seguramente um país com racistas, mas é também, e como a solidariedade generalizada com Marega demonstra, um país maioritariamente sem racistas. É essa indignação coletiva que nos deve mobilizar para combater aquilo que me parece bastante mais comum: muitos portugueses, não sendo racistas, têm atitudes racistas. Tal como os brasileiros contam piadas de portugueses não percebendo que o estereotipo que transmitem nos magoa, muitos portugueses brancos contam piadas racistas não percebendo que contribuem para manter vivo um preconceito que magoa outros. Aquilo que para nós é inocente e uma graça para outros pode ser doloroso. Quando muitos esperavam que Marega encolhesse os ombros e continuasse a jogar, ele expos essa dor. Agora que a conhecemos, que tal respeitá-la noutras dimensões da nossa vida?

*Professor universitário

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