Opinião

Na política o que conta é o que os outros dizem

Na política o que conta é o que os outros dizem

A política não é o que fazes, nem sequer o que dizes, é o que dizem que fazes ou o que dizem que disseste.

Muitos se recordarão de quando Passos Coelho foi acusado de ter convidado os professores a emigrar: "Estamos com uma demografia decrescente, como todos sabem, e portanto nos próximos anos haverá muita gente em Portugal que, das duas uma: ou consegue nessa área fazer formação e estar disponível para outras áreas ou, querendo manter-se sobretudo como professores, podem olhar para todo o mercado da língua portuguesa e encontrar aí uma alternativa". Poucos sabem que, cinco anos mais tarde, António Costa disse o mesmo, ao falar do ensino de português no estrangeiro: "É muito importante para a difusão da nossa língua. É também uma oportunidade de trabalho para muitos professores de português que, por via das alterações demográficas, não têm trabalho em Portugal e podem encontrar trabalho aqui em França". Ambos disseram que a evolução demográfica fará com que alguns professores tenham de ver no estrangeiro uma alternativa. No entanto, a leitura pública não podia ter sido mais diferente.

Às vezes, nem sequer são as palavras, bastam gestos. Talvez se lembrem do uso que muitos fizeram (incluindo o atual PM) da imagem de Vítor Gaspar de joelhos junto à cadeira de rodas do ministro das Finanças alemão Schäuble. O gesto de educação de Vítor Gaspar foi transformado num sinal de subserviência. Não deixa de ser irónico que António Costa fosse, anos mais tarde, sujeito à mesma exploração de uma imagem: a sua recente vénia ao cumprimentar o PM holandês foi transformada num sinal de submissão.

O exemplo mais recente envolveu a ministra da Cultura. Confrontada com os problemas sociais no mundo da cultura num evento para apresentação de obras de arte adquiridas pelo Estado, a ministra não quis desviar-se do tema e procurou terminar a conversa convidando os jornalistas para o drink previsto. O pouco à vontade da ministra foi transformado em insensibilidade. A sua resposta aos problemas da cultura seria oferecer um drink de final de tarde.

Alguns argumentam que é legítimo atribuir às palavras um sentido diferente daquele pretendido por quem as disse se corresponder ao que acham que essa pessoa realmente pensa. Mas há algo de intelectualmente desonesto nisso. E esta crescente exploração das palavras e imagens na política tem outros dois riscos. Quem domina o espaço comunicacional domina não apenas o que diz, mas também o que se diz que o outro disse. E o receio de ser diferente será cada vez maior por parte dos políticos moderados que temem a "apropriação" das suas palavras e gestos. É a política sem risco. E uma política moderada avessa ao risco não consegue combater os extremos que vivem de ultrapassar esse risco.

*Professor universitário

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