Razão Prática

O monstro virtuoso

Para Lula da Silva "ainda bem que a natureza, contra a vontade da humanidade, criou esse monstro chamado coronavírus". É mais uma voz a romantizar o vírus, a resposta da natureza aos abusos da humanidade.

Alguns fazem-no por desejo (desespero?) espiritual: dar sentido a esta pandemia através do equilíbrio que restabeleceria no Mundo. Outros fazem-no por ideologia, procurando reforçar certas posições políticas através das reações de exceção que a pandemia provoca: sobre a emigração, a globalização ou o papel do Estado, por exemplo. Nos campos da política radical é comum explorar os momentos de excecionalidade procurando fazer deles a normalidade...

Seja por uma ou outra razão, esta "romantização" do vírus diz-nos que "antes é que era"! Há uma idealização do passado longínquo (e só por isso fácil de idealizar), contrastando com as dificuldades do presente. O passado de um estado frugal e autossuficiente: onde não estávamos expostos aos outros e dependeríamos apenas de nós mesmos. Isto é perigoso porque nos engana. E enganados não responderemos bem aos desafios reais que enfrentamos.

Estamos hoje muito melhor do que no passado. Nos últimos 50 anos a mortalidade infantil passou de mais de 20% para menos de 4%. A expectativa de vida aumentou entre dez e vinte anos, dependendo da região do globo. A iliteracia reduziu-se a quase um terço do que era. O PIB per capita, em paridade de poder de compra, mais que triplicou. Em 1990, a pobreza extrema atingia mais de 1900 mil milhões de pessoas, hoje atinge menos de 500 milhões. É um erro usar o vírus para defender o regresso a uma forma de vida do passado. Ainda temos inúmeros problemas e enfrentamos novos desafios. Devemos aprender com esta crise como melhorar, mas não abandonar o que nos trouxe até aqui.

A pandemia não resulta da nossa crescente interdependência com os outros nem da nossa diferente forma de vida. O vírus não foi uma revolta da natureza contra essa forma de vida. Se fosse, teríamos de concluir que a natureza vive em permanente revolta connosco (o que até pode ter algo de verdade...). Da praga justiniana à peste negra, já se revoltou de formas bem piores ao longo da História.

Esta não é a primeira pandemia e a grande maioria delas, incluindo no século passado, foram bem mais catastróficas. Pelo contrário, apesar dos enormes e graves erros feitos, temos sido mais eficazes a responder a esta pandemia do que no passado.

Muito devido às transformações que o Mundo sofreu nas últimas décadas. E é a partilha e circulação do conhecimento, ciência e tecnologia que nos permite ter esperança num tratamento ou numa vacina muito mais rapidamente. A verdadeira lição é esta: estamos juntos no planeta e é juntos que devemos enfrentar os seus desafios.

*Professor universitário

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