Razão Prática

O presidencialismo do futebol e o poder absoluto

O presidencialismo do futebol e o poder absoluto

Esta semana ficámos a saber que o presidente do Benfica "atribuiu" a si mesmo o equivalente a um "prémio" de quase 4 milhões de euros.

O Benfica SGPS, presidido por Luís Filipe Vieira, fez uma oferta pública de aquisição das ações da Benfica SAD, de que Luís Filipe Vieira é acionista e presidente, a quase o dobro do seu valor de mercado (81% superior)...

Como alertou Pedro Sousa Carvalho, há aqui um claro conflito de interesses, com o presidente do Benfica a aparecer do lado do comprador e vendedor. A lei não o permite, mas foi, alegadamente, facilmente contornada através da atribuição ao presidente, e outros dirigentes do Benfica, do direito de venderem as suas ações a este preço no dia em que abandonarem as suas funções na SAD. O presidente do Benfica decide assim o preço a que irá vender as suas ações ao próprio Benfica...

Este devia ser, sobretudo, um tema a preocupar os sócios do Benfica (para os sócios do Sporting ou do F. C. Porto é uma boa notícia o Benfica gastar estes milhões com os seus dirigentes em vez de em bons jogadores...). Mas é improvável. No futebol há a convicção generalizada de que ganhar exige um presidente forte, com poderes absolutos. Enquanto ganharem de pouco interessa como ganham.

O escrutínio ou críticas dos sócios são, imediatamente, apresentados como obstáculos às vitórias e uma traição ao clube. Esta concentração de poderes é visível, desde logo, na permanência no poder destes presidentes, suscetível de "envergonhar" inúmeros ditadores. Mas coloca em causa, também, qualquer forma interna de controlo do seu poder.

É assim em praticamente todos os clubes. No meu clube a deriva autoritária de Bruno de Carvalho precedeu o descontrolo na gestão da equipa. Penitencio-me por não ter falado quando essa deriva autoritária era já obvia. E preocupam-me alguns sinais dessa cultura na atual liderança, incluindo num jurista prestigiado como o presidente da Mesa da Assembleia-Geral (que veio invocar como seu um poder que pertence aos sócios).

Algo se passa com o nosso juízo crítico quando estão em causa os nossos clubes. Isso exigiria que fôssemos ainda mais criteriosos nos modelos de governo dos clubes. Experimentem, no entanto, defender limites aos mandatos dos presidentes ou mecanismos eficazes de separação e controlo do poder. Vão olhar-vos como se não percebessem nada de futebol. Na verdade, isso seria fundamental para proteger o futebol da corrupção de alguns negócios do futebol...

Como disse Lord Acton, se o poder corrompe, o poder absoluto corrompe absolutamente!

*Professor Universitário

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