Opinião

Oposição e interesse nacional

Oposição e interesse nacional

Quando um país sofre um choque exógeno violento a tendência é unirmo-nos. Perante a ameaça externa, seja uma guerra ou uma pandemia, enfrentamo-la mais forte se estivermos juntos.

É por isso que, paradoxalmente, o efeito destas crises é aumentar a popularidade dos governos. Nos EUA chamam a isto "ralling behind the flag" (unir-se por detrás da bandeira). De tal forma que o filme "Wag the dog" chegou a ficcionar uma guerra para salvar a popularidade de um presidente americano a braços com uma crise interna. A pandemia não é inventada. É cruelmente verdadeira. E produziu, ao menos inicialmente, esse mesmo efeito de união em torno daqueles que ocupam o poder. Num contexto de incerteza e medo todos queremos confiar em quem nos pode guiar e proteger. E perante esta ameaça externa o que se espera da Oposição é que contribua para essa unidade e coopere com aqueles que estão em posição de nos proteger. Proteger e reforçar a sua autoridade, contribuindo, desta forma, para a confiança nas suas decisões. Sem essa confiança a efetividade da resposta fica em causa.

Nestes momentos, preferimos o silêncio das oposições às críticas e divisões que ameaçam a capacidade da resposta coletiva necessária. Mas há um risco com esta abordagem: as melhores decisões não resultam da ausência de escrutínio. Na política, tal como na ciência, as melhores decisões são aquelas em que os factos em que se baseiam são verificados por outros e os argumentos em que assentam testados pelo confronto com ideias e hipóteses distintas. É verdade que, numa crise como esta, a atitude da Oposição, tal como a de todos nós, tem de ser cooperante, mas a melhor forma de cooperar pode, por vezes, ser a crítica. Temos de distinguir a avaliação dos governos, a ser feita num momento posterior, do escrutínio das suas decisões, necessário para garantir a sua melhor qualidade. Se é compreensível suspender o combate político, não o devemos confundir com suspender o escrutínio democrático.

Este equilíbrio não é fácil para os cidadãos e menos ainda para a Oposição. Se fica silenciosa, em nome da unidade nacional, é corresponsabilizada por decisões que não são suas. Se crítica, é acusada de querer fazer política com a crise. Perante este equilíbrio impossível o melhor mesmo é a Oposição fazer o que é certo. Exigir transparência, fundamentação científica das decisões, coerência e coragem. Os portugueses saberão distinguir uma crítica que visa retirar dividendos políticos contra o Governo, de uma crítica que visa melhorar as decisões do Governo. E o país necessita que assim seja.

Professor universitário

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