Razão Prática

Os quatro pecados da crise política da pandemia

Os quatro pecados da crise política da pandemia

No início da pandemia o Governo beneficiou de um apoio transversal a toda a sociedade e partidos. Hoje, esse apoio perdeu-se. Em parte, isso era inevitável. Perante um choque exógeno, como o vírus, a primeira reação é procurar refúgio nas nossas instituições.

Mas à medida que a pandemia progride, e se transforma também numa crise económica e social, a confiança nas instituições vai sendo colocada em causa. Polarização e confronto substituem o consenso. Como alertei então, era fundamental que o Governo agisse com transparência, clareza e coerência. O Governo tem feito o contrário, expresso em quatro pecados fundamentais.

Primeiro, pouca transparência. O Governo quer que confiemos no que nos diz mas não divulga os dados em que as decisões se devem basear. Ou não os tem ou não os quer tornar públicos. Aconselho o leitor a comparar os dados disponíveis no site relativo à covid-19 do Governo português com os dados disponibilizados por outros governos europeus. Que confiança podemos ter quando o Governo nos diz que o vírus não se propaga nas escolas, fábricas, transportes, universidades ou eventos políticos e se propaga nas famílias, restaurantes ou ginásios? De que forma podemos escrutinar essas afirmações se os dados que o permitiriam não existem ou não são públicos? Se inicialmente a falta de transparência protegeu o Governo do escrutínio hoje é entendida como um sinal de que nos esconde algo.

Segundo, falta de planeamento. O Governo queria tanto que a segunda vaga não ocorresse que agiu como se não pudesse ocorrer. O Serviço Nacional de Saúde foi pouco reforçado nos últimos meses e só agora o Governo prepara o recurso aos hospitais privados. Também o impacto económico não foi antecipado. O Orçamento em discussão no Parlamento foi preparado para uma economia já em recuperação, sem segunda vaga. Os especialistas acusam o Governo de ter feito pouco e tardiamente. A desorientação atual resulta dessa falta de preparação.

Terceiro, pouca equidade. As contradições sucedem-se. Aos olhos dos cidadãos as regras variam consoante o poder de diferentes grupos. Na economia, em vez de assumir a responsabilidade de encerrar certos setores e compensá-los de forma conforme a isso, o Governo mantêm-nos abertos mas retira-lhes viabilidade económica. Querem um exemplo? Nos EUA várias cidades encerraram os restaurantes, mas em compensação a Câmara dos Representantes acaba de aprovar uma lei que os compensa totalmente da perda de faturação face ao ano passado...

Por último, António Costa não agarrou a mão que Rio lhe ofereceu. Num contexto de crise, o líder da Oposição apoiou o Governo. Em troca, o primeiro-ministro afastou-o das negociações do Orçamento. Eis como à crise da pandemia juntamos uma crise política.

*Professor universitário

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