Opinião

Quando a ideologia e a demagogia se confundem

Quando a ideologia e a demagogia se confundem

A privatização da TAP era uma obrigação inscrita no Memorando de Entendimento do Programa de Assistência Financeira assinado pelo Governo socialista. Era uma das boas coisas (também tinha más).

A TAP estava, tal como hoje, numa situação próxima da insolvência. Apesar de muitos então o negarem (com a mesma certeza com que hoje afirmam o contrário) qualquer apoio do Estado iria obrigar a uma reestruturação dolorosa decorrente das regras europeias. Acresce que o mercado da aviação exige hoje empresas com uma escala incompatível com a dimensão das velhas companhias de bandeira estaduais. É a razão pela qual têm sido todas privatizadas e existido fusões de companhias. A privatização permitiu evitar colocar mais dinheiro dos contribuintes na TAP, ao mesmo tempo que se evitou a reestruturação e se potenciou o crescimento do seu hub.

Apesar disto, quando em 2015 se concluiu a privatização não faltou quem dissesse que iria levar a despedimentos, cortes de salários, desinvestimento e menos rotas. Nada disso aconteceu, pelo contrário. E, não deixa de ser irónico ouvir o Governo de Esquerda, que voltou a "nacionalizar" a empresa, a criticar a gestão privada por ter contratado mais gente, comprado aviões e aumentado salários... Não tenho informação para avaliar a sustentabilidade da estratégia de crescimento da gestão privada, mas sei que os resultados para o país estavam a ser bons (mais rotas, mais passageiros) e o risco, enquanto a TAP fosse privada, seria dos privados, não nosso.

Seria demagógico dizer que a TAP não iria necessitar de apoio financeiro e reestruturação após a pandemia mesmo que tivesse permanecido em mãos privadas. Mas esse esforço financeiro, tal como o risco, recairia mais sobre os privados do que sobre os contribuintes. Acresce que a nossa margem de decisão sobre se, como e quanto apoiar essa empresa privada seria muito maior do que agora, tendo o Estado retomado o controlo e investido substancialmente na empresa. Depois de lá colocar tanto dinheiro que nos restará se não colocar ainda mais?

A ironia, não nova infelizmente, é perceber que foi um governo socialista que ofereceu um fantástico negócio a um investidor privado: pagar-lhe para se livrar de um problema... Somos o único país do Mundo onde um proprietário privado da aviação lucrou com a pandemia. E não será surpreendente se depois de lá colocarmos imenso dinheiro a reestruturação da TAP exija que volte a ser privatizada.

Não sei se a culpa por tudo isto recai mais no oportunismo de António Costa ou no dogmatismo ideológico de Pedro Nuno Santos. Sei que o cúmulo da falta de vergonha seria a tentativa de associar os partidos que se opuseram a isto obrigando-os a pronunciar-se sobre a reestruturação. Seria como num casamento forçado dar a hipótese à noiva de escolher onde o casamento vai ter lugar.

*Professor universitário

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