Razão Prática

Regras simples para um Mundo complexo

Regras simples para um Mundo complexo

No início desta pandemia escrevi aqui sobre o desafio que constituía para os responsáveis públicos saber gerir a incerteza. Precisávamos de regras simples para um Mundo complexo. Se não o soubessem fazer, a consequência seria uma comunicação pública incapaz de orientar os cidadãos no meio desta crise. O pior seria a incerteza científica inerente ao vírus e à pandemia transformar-se em incerteza sobre o que era pedido aos cidadãos. Infelizmente é a isso que parecemos estar a assistir, com mensagens e decisões públicas inconsistentes e erráticas. Acresce que quanto mais se prolonga a inconsistência das mensagens públicas menos credibilidade e respeito merecem por parte dos cidadãos. Todos se recordam de como, inicialmente, nos foi dito que as máscaras apenas não eram necessárias como até poderiam ser prejudiciais. Agora são fundamentais e até na rua devem ser obrigatórias. E se os testes começaram por ser justificados apenas em casos de sintomas claros, agora diz-se que o sucesso da resposta à pandemia passa por "testar, testar, testar". Com este histórico não sabemos se devemos acreditar quando nos dizem que os testes rápidos não fazem sentido ou se daqui a poucas semanas, quando houver dinheiro para os ter, nos irão dizer que afinal são parte fundamental do combate à pandemia.

Perante o aumento do número dos infetados, num contexto em que a crise económica e social já é patente, a prioridade parece ser transferir a responsabilidade para os cidadãos. É-nos dito que somos nós, através do nosso comportamento, que temos de manter o equilíbrio entre preservar a economia e controlar a pandemia. Mas como? Sim, temos de cumprir regras como usar a máscara e higienizar as mãos. Mas, quanto ao resto as mensagens que recebemos são contraditórias. Afinal, devemos ir a restaurantes, hotéis, teatros ou evitar socializar? Uma mensagem geral de que devemos limitar ao máximo os nossos encontros com os outros é contraditória com o apelo a proteger certas atividades. Parece que se pretende evitar ter a responsabilidade política das escolhas difíceis a que a pandemia obriga.

A sensação que temos é que estamos agora tão, ou mais, desorientados do que no início da pandemia. Muitos alertaram para a história das pandemias. As segundas vagas foram sempre piores do que as primeiras, precisamente porque se julgou que o pior tinha passado.

Em vez de preparação temos desresponsabilização. Só agora se reforçam as equipas de rastreamento das cadeias de contágio. A aplicação telefónica com o mesmo fim não funciona (os serviços médicos apenas criaram os códigos necessários ao seu funcionamento em 2% dos casos). Em vez de a pôr a funcionar, procurou-se que fosse obrigatória. Tornar obrigatório algo que não funciona: eis, infelizmente, uma boa metáfora de como estamos a lidar com a pandemia...

*Professor Universitário

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