Opinião

Sá Carneiro e o que é isso da social-democracia

Sá Carneiro e o que é isso da social-democracia

Os quarenta anos da morte de Sá Carneiro geraram uma série de reflexões sobre o que seria o seu pensamento político hoje. No PSD (o meu partido), a associação ao pensamento político de Sá Carneiro é também uma forma de procurar uma legitimidade histórica.

Talvez o primeiro sinal de respeito que lhe devamos é assumir que ninguém é o intérprete autêntico do seu pensamento. Menos ainda na sua transposição para um contexto tão diferente como aquele dos dias de hoje. As ideias e palavras de Sá Carneiro podem inspirar cada militante do PSD a refletir sobre a identidade política do partido e qual a melhor forma de a exprimir nos dias de hoje. Mas só é fiel à coragem e frontalidade política de Sá Carneiro quem assumir responsabilidade plena por essas propostas, justificando-as pelo que valem hoje e não por qualquer herança política do passado.

Talvez a maior dúvida identitária do PPD/PSD seja a própria associação à social-democracia. Não há dúvida histórica de que Sá Carneiro queria um partido social-democrata assente no pensamento de Edouard Bernstein e inspirado na prática política escandinava. Mas não faltam aqueles que acham que isso nunca correspondeu ao seu eleitorado nem reflete a evolução do seu discurso e prática política. Frequentemente, o PSD é apresentado como ideologicamente ambíguo e confuso, juntando conservadores, socialistas e liberais. Esta visão assenta, no entanto, num equívoco quanto à social-democracia. O que muitos veem como ambiguidade é antes reflexo da moderação política que está no ADN da social-democracia. Isto é visível em dois dos seus aspetos fundadores. Primeiro, Bernstein desenvolveu a social-democracia ao constatar que o determinismo histórico socialista não se adequava à realidade e que isso facilmente convertia as suas utopias em projetos totalitários (como sempre acontece quando as ideias ignoram a realidade). Segundo, o projeto político social-democrata procura superar a ideia de que temos de escolher entre igualdade e liberdade. Se a liberdade com meios desiguais é uma liberdade limitada, a igualdade ou é igual liberdade ou é uma limitação dessa igualdade. A reconciliação entre idealismo e realidade e igualdade e liberdade está no centro da social-democracia. É por isso que a social-democracia derivou do socialismo, mas também é, como dizia Bernstein, a herdeira do liberalismo. Aquilo a que muitos atribuem a confusão ideológica do PSD é, na verdade, a sua identidade política. A diferença entre identidade política e confusão ideológica só depende de uma coisa neste contexto: se reconciliamos princípios ou somamos oportunismos. Sá Carneiro foi claro em que só a primeira, ainda que bem mais difícil, justifica a ação política.

*Professor universitário

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