Opinião

Saber o que se passa para saber o que fazer

Saber o que se passa para saber o que fazer

Em julho deste ano morreram mais 2137 portugueses do que em julho do ano passado. É um aumento de mais de 26%, muito superior ao número de mortes atribuídas ao coronavírus covid-19 nesse mês.

Desde que a pandemia atingiu Portugal (em março) morreram mais 4831 portugueses do que no período equivalente do ano passado (medido pelo final de julho). No entanto, apenas 1737 destas mortes foram atribuídas à covid-19.

O excesso de mortalidade face a anos anteriores é generalizado no Mundo, ainda que varie significativamente entre países. A causa mais provável é a pandemia. Isso não quer dizer, no entanto, que a causa seja o próprio vírus. É que o dado mais surpreendente é que esse excesso de mortalidade é bastante superior, em muitos países (tal como entre nós), ao número de mortos atribuídos à covid-19. Um estudo da London Business School, comparando alguns estados europeus, incluindo Portugal, indicava que o excesso de mortalidade face à média dos anos anteriores era duas vezes superior ao da mortalidade atribuída à covid-19. No caso português, essa diferença era ainda maior: quase três vezes.

Confrontadas com a diferença na mortalidade de julho deste ano face ao ano passado, as autoridades portuguesas vieram dizer que tal aumento não estaria relacionado com a pandemia, mas sim com a vaga de calor que sofremos em julho. Esta tese não é convincente. Nem explica o facto dessa diferença já existir antes de julho e da vaga de calor, nem o facto de ela existir face a anos anteriores em que tivemos vagas de calor semelhantes. O facto de este excesso de mortalidade, para além dos mortos atribuídos à covid-19, estar a ocorrer igualmente noutros países leva a supor que também decorrerá da pandemia. A tese mais comum relaciona este aumento com as medidas de confinamento e de redistribuição dos recursos de saúde para o combate à pandemia, que levaram a uma diminuição das consultas, exames e tratamentos de outras doenças. A hipótese alternativa é que estamos a subestimar os mortos por covid-19. O facto de existirem estados, como a Bélgica e a Alemanha, em que não existe diferença entre o aumento global da mortalidade e as mortes atribuídas à covid-19 suscita a hipótese de se tratar afinal de uma diferença no critério usado entre países para atribuir mortes ao vírus. Mais gente estaria a morrer de covid-19 entre nós do que as estatísticas indicam.

Não sei qual a hipótese verdadeira, mas sei que é fundamental descobrirmos. Se for a primeira hipótese, significa que está a morrer mais gente, não do vírus, mas das medidas adotadas para o combater. Se for a segunda, teremos antes de nos preocupar em reforçar essas medidas.

*Professor universitário

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