Razão Prática

Três lições políticas de 2019

Três lições políticas de 2019

É habitual, nesta altura, identificar eventos e personalidades que marcaram o ano. Partindo desses eventos e personalidades, pensei nas três lições de fundo que podemos retirar sobre a política nos tempos de hoje.

1. Política é emoção

O que têm em comum Greta Thunberg e Donald Trump? Ambos conectam com as pessoas a um nível emocional. A capacidade de promover ideias políticas, boas ou más, está cada vez mais dependente de uma adesão emocional mais do que racional. Greta conseguiu o que o consenso científico não tinha conseguido: fazer do clima o principal tema político. O sucesso de Trump não depende dos factos, mas da identificação daqueles que o suportam com os sentimentos que transmite. A crescente radicalização política é filha desta política das emoções. O desafio para os políticos sérios? Conseguir a empatia emocional com os cidadãos sem dispensar (nem os dispensar) do uso da razão. O desafio para a sociedade? Preservar as condições que permitem a procura de um bem comum num contexto crescentemente polarizado.

2. Não basta estar melhor

O Mundo está hoje muito melhor do que alguma vez na história: da expectativa de vida ao número de pobres, praticamente todos os indicadores revelam melhorias. Mas não é isso que muitos sentem. Só isso explica a multiplicação dos conflitos sociais a que assistimos este ano. Há dois fatores que estão a determinar esta angústia social de muitos. Primeiro, a incerteza. A perceção de que facilmente os pilares da sua vida podem ser colocados em causa. Segundo, um sentimento de injustiça associado a certas formas de desigualdade. Em muitos domínios a desigualdade diminuiu no Mundo. Mas existem exemplos de desigualdade e riqueza extrema (e, por vezes, oportunista) que alimentam um sentimento de injustiça. O que isto nos ensina é que não basta estar melhor. As pessoas também exigem justiça relativa.

3. Do multilateralismo à política transacional

A grande mudança que Trump trouxe à política internacional foi a substituição do multilateralismo (organizações e acordos internacionais promovendo o interesse comum dos diferentes Estados) pela política transacional, que concebe a política internacional como qualquer outro negócio, em que cada um faz uso da força que tem. Este é um Mundo em que os estados com mais poder vão ganhar no curto prazo (Trump tem conseguido vitórias significativas em acordos de comércio). É um Mundo feito para Trump, Xi Jiping, Putin ou Erdogan. Não é um Mundo feito para uma Europa de estados nacionais, em que todos são pequenos perante os velhos e novos grandes...

*Professor universitário

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