Opinião

Uma grande família republicana

Uma grande família republicana

A ética republicana é um argumento infalível de superioridade moral usado por líderes socialistas desde tempos imemoriais.

De Sampaio a Alegre, de Soares a Guterres, passando por Almeida Santos e, sim, é verdade, até por Sócrates. O conceito assenta no princípio da suprema honestidade e numa conduta de total transparência, na rejeição do favor, do amiguismo e do nepotismo. O bom republicano não tem família, não tem amigos e não tem interesses. Na maior parte dos casos, nem sequer tem património.

A ética republicana encontra marca indelével no seio do Governo de António Costa. Ela está no ministro José Vieira da Silva, pai da ministra Mariana Vieira da Silva e marido da deputada Sónia Fertuzinhos, agora de partida para a bancada do PS no Parlamento Europeu. Mas é igualmente evidente na relação matrimonial entre o ministro Eduardo Cabrita e a ministra Ana Paula Vitorino. Esta teve aliás há meses o ensejo de nomear Eduardo Paz Ferreira para presidente da comissão de renegociação da concessão do terminal do Porto de Sines. Quem? O marido da ministra Francisca Van Dunem.

Trata-se de uma tradição antiga, que não distingue épocas ou geografias. Pense-se na família do líder parlamentar do PS. Com o patriarca César ausente no continente, mulher, filho, irmão e nora veem-se obrigados a desempenhar cargos públicos nos Açores. Ou no irmão da secretária-geral adjunta do PS que é secretário de Estado dos Assuntos Fiscais. Já o atual ministro da Defesa, por exemplo, é filho de um antigo ministro das Obras Públicas, João Cravinho, colega de António Costa no XIII Governo Constitucional. Do mesmo modo que o primeiro ministro da Cultura deste Governo é filho de Mário Soares que nem nos seus tempos de presidência "quase monárquica" levou a ética republicana a um expoente tão elevado. Sendo certo que muitas destas pessoas têm méritos e competências de sobra, é verdadeiramente a sensação de compadrio familiar alargado que lhes arruína a reputação e lhes limita a ação.

A remodelação governamental desta semana agrava a circunstância de sermos todos levados a achar que a composição do Governo é essencialmente ditada por relações de parentesco ou de amizade. E concluirmos que não há vislumbre de iniciativa política para além do núcleo duro que rodeia o primeiro-ministro. É certo que António Costa é livre de convidar para sua casa quem bem quiser e entender, sendo o único responsável pelas suas escolhas, pelas quais virá, também, a ser avaliado nas urnas. Sucede que o Executivo não é a casa de António Costa; é o Governo da nação.

*EMPRESÁRIO E PRES. ASS. COMERCIAL DO PORTO