Opinião

Editorial: O passageiro que chegou atrasado 

Editorial: O passageiro que chegou atrasado 

Eduardo Cabrita quis ser uma vítima até ao fim. Uma vítima do aproveitamento político, uma vítima das circunstâncias, uma vítima do azar.

Na hora de bater com a porta da Administração Interna, não teve, porém, a coragem e a decência de admitir que foi, única e exclusivamente, uma vítima da sua própria sobranceria, impunidade e irresponsabilidade políticas. Num exercício propagandístico e autoelogioso, em que exibiu dados estatísticos que nada têm a ver com o caso que o fez abandonar o cargo de ministro da Administração Interna, comunicou ao país que só não saiu antes porque António Costa não deixou. Um agradecimento envenenado a quem, durante demasiado tempo, deu cobertura institucional aos seus desmandos. Porém, a imagem que ficará para a história será a de um ministro que, a propósito da morte de um homem atropelado por uma viatura de Estado que seguia a velocidade excessiva com ele no banco de trás, perdeu mais tempo a dourar as suas conquistas governamentais do que a dirigir-se à família enlutada e a proteger o motorista agora acusado pelo Ministério Público de homicídio por negligência. Não assumiu a sua responsabilidade política, não defendeu a dignidade das funções que desempenhava.

É pouco crível que, apenas uma horas depois ter reclamado para si a condição de mero passageiro, Eduardo Cabrita tenha tido um assomo de clarividência. Saiu porque deixou de contar com o respaldo de António Costa, que até o achava um "excelente ministro da Administração". Porque era demasiado tóxico num contexto pré-eleitoral. Reclamar para si a mera condição de passageiro é não apenas uma enorme descortesia para com o motorista, uma desresponsabilização cobarde de alguém que tinha ascendente hierárquico sobre o agora acusado. É, também, uma lastimável ousadia de um responsável governamental que, ao atirar dúvidas sobre a conduta do trabalhador ("as condições de um atravessamento de via não sinalizada têm de ser esclarecidas no quadro do acidente", enfatizou), está a espezinhar a memória da vítima e a adensar o sofrimento da viúva e das suas filhas, a quem foi atribuída uma pensão de sobrevivência de 259 euros. Se ainda for possível uma réstia de humanidade e dignidade, que o Estado não insista na instrução do processo e permita que o caso vá para julgamento, fixando-se rapidamente uma indemnização à família enlutada. Eduardo Cabrita pode não ter responsabilidades criminais no caso, mas é tudo menos o passageiro involuntário de uma história lamentável em que acabou desmentido pelo Ministério Público. Quando muito, é o passageiro que chegou demasiado tarde à sua própria demissão.

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