Opinião

A infinda barbárie

Conseguimos ir à Lua, preparamos a conquista de Marte, conseguimos clonar animais, e só o não fazemos com humanos por questões éticas, criámos compostos que substituem o material biológico do nosso corpo. E iremos, sem dúvida, continuar a evoluir. Mas terá efetivamente evoluído assim tanto a humanidade quando, por questões religiosas, persistem massacres sangrentos como na idade das trevas mais profundas?

A barbárie voltou, no Sri Lanka, domingo de Páscoa: no dia em que milhões de católicos, nas sete partidas do mundo, celebram o renascimento, a festa de algo que de novo se transforma. Desta vez, a alegria e a celebração ficaram suspensas, perante os ataques terroristas que assassinaram centenas de pessoas em igrejas e em hotéis, na antiga Taprobana cantada por Camões.

O mundo reagiu incrédulo, consternado. Europeus, um português, inclusive, a gozar a lua de mel, americanos, cidadãos de várias nacionalidades perderam brutalmente a vida. O mundo consterna-se. Outras vezes segue mais ou menos indiferente à barbárie. Nada de anormal. Reagimos em proporção à proximidade que temos com as vítimas.

O que causa mais perplexidade, contudo, é esta irracionalidade que nos faz recuar a tempos ancestrais. No tempo em que o homem cria órgãos artificiais que devolvem a vida, no tempo em que não nos surpreendermos perante viaturas autónomas a circular nas ruas das cidades, no tempo em que conseguimos transformar sentenças de morte como o diagnóstico de HIV em doenças crónicas, é duro assistir a massacres em nome da fé e de outros inconfessados interesses. Afinal, bem vistas as coisas, avançou-se pouco - a marcha da humanidade parece, afinal, ainda no ponto de partida.

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