Podem os portugueses confiar no Estado como garante de segurança? Como entidade zeladora dos interesses e bem-estar dos seus cidadãos? A demissão de um diretor da CP deve fazer-nos pensar sobre o assunto: revela bem o ponto a que chegaram os nossos serviços públicos. Pontes Correia terá sido exonerado por manifestar discordância em relação à decisão da administração de prolongar a atividade do material circulante antes de seguir para a manutenção. O diretor da CP terá alertado para o risco que tal medida poderia representar na segurança dos passageiros. Foi afastado.
Quem nas suas deslocações utiliza a linha férrea com frequência facilmente se apercebe da debilidade dos Comboios de Portugal. A começar pela falta de fiabilidade dos serviços, sem respeito pelos utentes, obrigando-os a procurar alternativas devido a atrasos constantes e supressão de viagens. Dói ver uma empresa a deslizar dia a dia para o abismo da ineficácia, deixando para trás aqueles que lhe dão sentido: os passageiros. Dói ver um país indiferente perante o continuado afundamento de uma empresa prestadora de um serviço público fundamental. Dói ouvir um governo falar da necessidade de cumprir as metas de redução de gases com efeito de estufa, numa tarefa comum à escala planetária, para travar as alterações climáticas, e todos os dias dar argumentos aos portugueses para tirarem o carro da garagem.
Se salta à vista o desinvestimento do Estado no transporte ferroviário, a definhar há décadas, não é menos evidente que essa falta de liquidez se estende às empresas de metropolitano.
Basta ser utente nas linhas que servem a periferia do Porto, a abarrotar nas horas de ponta por falta de carruagens, e logo se concluir que o incentivo do discurso político para usar o transporte público não tem reflexo na realidade quotidiana. O Estado prefere manter o financiamento nas parcerias público-privadas que exploram, com êxito, as inúmeras autoestradas. Afinal, o desenvolvimento harmonioso de um país avalia-se pelas escolhas feitas pelos que representam o Estado.
*Editora-executiva-adjunta
