Opinião

Quando ganha o medo

Quando ganha o medo

Afinal aconteceu. Um candidato de extrema-direita venceu a primeira volta das eleições no Brasil. Jair Bolsonaro, ex-capitão na reserva, apologista da violência, com um discurso contra as mulheres, os indígenas, os negros e os homossexuais, defensor da tortura e da ditadura militar, está à beira de ser o presidente. Com 46 por cento dos votos, irá disputar, daqui a três semanas, na segunda volta, o Palácio do Planalto, com Fernando Haddad, a escolha tardia do PT, feita no limite, quando o partido percebeu que Lula da Silva, preso por corrupção, não tinha condições para ser candidato.

No Brasil, um país onde a corrupção faz parte do quotidiano - ao contrário do que muitos querem fazer passar, como se tivesse sido o juiz Moro a descobrir o fenómeno no Partido dos Trabalhadores, esquecendo que o próprio Temer é suspeito, assim como grande parte do Senado -, ganhou o medo. O medo da violência urbana, o medo da classe média-alta de continuar a perder privilégios, o medo dos políticos tradicionais. Há, sem dúvida, razões para ter medo - mas do que poderá surgir, caso Bolsonaro derrote Haddad na segunda volta.

Em terras brasileiras e também aqui, na Europa. O fenómeno alastra. Em Itália, na Polónia, na Hungria. Ou na vizinha Espanha: um novo partido de extrema-direita consegue encher pavilhões que Podemos e Ciudadanos deixaram com grandes clareiras. São os descontentes do Partido Popular, defensores de um partido mais radical, sem vergonha do franquismo. O Vox está aí, sob o lema "fazer Espanha grande outra vez". Nesse propósito, não cabem os refugiados, os direitos das mulheres, a União Europeia. O novo partido, liderado por um antigo membro do PP, é assumidamente xenófobo, antieuropeu e antifeminista. Santiago Abascal, líder do Vox, anda sempre munido de símbolos nacionalistas e de uma pistola. Assim faz o seu caminho. Bolsonaro começou como anedota.

* EDITORA-EXECUTIVA-ADJUNTA

ver mais vídeos