Opinião

Ter teto é um luxo

As casas à venda em Lisboa e Porto são apenas acessíveis a uns poucos. Nos últimos anos, a especulação tornou a compra de habitação nos centros das duas principais cidades portuguesas num verdadeiro luxo. E arrendar casa, a solução para quem não consegue comprar, transformou-se noutra quimera.

Na Baixa do Porto é um verdadeiro achado conseguir-se um T1, ou mesmo um T0, abaixo de 700 euros por mês.

O preço da habitação tornou-se um fator de desigualdade social e, em muitos casos, de verdadeira exclusão. É um sério desafio, por exemplo, para os milhares de estudantes que, todos os anos, entram nas universidades. Um desafio à perseverança, de encontrar um espaço, decente, para viver. Ultrapassado o primeiro obstáculo, um outro desafio surge: conseguir acomodar a nova despesa no orçamento familiar.

Embora tarde, o Governo acordou para o problema. Acaba de ser lançado um plano de construção de residências universitárias, e deverá aumentar a oferta em 80 por cento. Seriam boas notícias se os critérios de distribuição não fossem, no mínimo, discutíveis. Das 11 526 novas camas previstas, 6927 ficam na Área Metropolitana de Lisboa, 4720 das quais na própria capital. Do bolo total, a Área Metropolitana do Porto recebe 1650, mas a cidade acolhe apenas 613. Distribuição estranha, sem dúvida, se tivermos em conta o seguinte: no Porto, 35 por cento dos alunos inscritos na universidade encontram-se deslocados, enquanto na academia lisboeta não ultrapassam os 32 por cento.

A resposta fica aquém do necessário, isso é evidente. Mas pode encerrar algo ainda mais perverso. Ao concentrar a oferta em Lisboa, o Governo está a aumentar a atratividade daquela universidade. Deveria fazê-lo?

Editora-executiva-adjunta