Duas crianças e três adultos foram encontrados sem vida num casebre em Trás-os-Montes. No Portugal do século XXI, no país que oferece 110 milhões de euros para a Web Summit ficar em Lisboa durante uma década, e se apresenta no exterior com a tecnologia como bandeira. Nesta terra, afinal, as mais básicas condições de vida estão ainda por conquistar. Cinco pessoas, entre as quais duas crianças, perderam a vida porque, na falta do essencial, recorriam a um gerador para ter energia no local onde habitavam. Chamavam-lhe casa, embora não fosse uma casa.
Neste país, cujo ministro das Finanças preside ao Eurogrupo, temos portugueses a viver na indigência. As vítimas de Sabrosa eram caseiros numa quinta do Douro. Só regressavam àquele tugúrio, a que chamavam casa, ao fim de semana. E colocavam mais uns tijolos, a alimentar o sonho de terem uma habitação verdadeira, digna. A tragédia aconteceu em novembro de 2018, num país da União Europeia. Cinco pessoas morreram. Eram trabalhadores da gleba, numa quinta de outrem, e viviam quase em condições idênticas aos remotos camponeses medievais.
O campo é isto. António Costa sabe-o. E Manuel Alegre adverte os políticos de que, "um dia, o campo pode revoltar-se". Também o político e poeta deveria sabê-lo. O campo não se revolta, porque não existe. Portugal mudou, é verdade, mas apenas se urbanizou. Na sua essência mantém, em muitos aspetos, as características do antigo regime. Onde a agricultura não morreu asfixiada por acordos comunitários, persistem as estruturas arcaicas. Caseiros em terras do Douro, as mesmas que aconchegam a galinha dos ovos de ouro trazida pelo turismo e, além de vinho, vendem bem-estar em quintas transformadas em hotéis de luxo. Os seus proprietários são urbanos, vivem na cidade grande: deslocam-se nas suas carrinhas potentes a verificar se os caseiros cuidam bem da fazenda.
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