Opinião

O ovo da serpente

Das eleições de domingo saiu um novo Parlamento, mais diversificado, à Esquerda e à Direita. Partidos criados recentemente (com exceção do Livre) conseguem representação: a Iniciativa Liberal e o Chega.

E acaba por ser este partido, o Chega, uma das novidades da noite de domingo. No hemiciclo de S. Bento terá, a partir de agora, assento um deputado de extrema-direita. E como disse esse mesmo deputado, ainda antes de ver confirmado o resultado, "é a primeira vez em mais de 45 anos que um partido com estas características chega à Assembleia da República". Isso mesmo, e André Ventura disse-o sem qualquer subterfúgio. Desde o final do Estado Novo, nenhum partido como o Chega teve qualquer representatividade no nosso país.

Assim, Portugal deixa de ser um oásis na Europa. Também aqui, contra as expectativas dos mais otimistas, a extrema-direita começa a tomar espaço. Cá como lá, o discurso contra os imigrantes e a não aceitação da diferença conquista caminho. Com pouca força ainda, por via do deputado André Ventura - candidato nas últimas autárquicas à Câmara Municipal de Loures pela coligação PSD/CDS - vai, naturalmente, tentar transpor para o Parlamento o seu programa. Portanto, não nos admiremos se ouvirmos discutir a castração química para os agressores sexuais ou a prisão perpétua para outros tipos de crime.

Em sintonia com o grupo de Visegrado, constituído pela Polónia, Hungria, Eslováquia e República Checa, o Chega compromete-se a combater a imigração. Para o novo partido com assento parlamentar, a ONU "é uma difusora do ideário marxista", que Ventura não está disposto a pagar.

A estratégia não pode, contudo, ser ignorada. E temo que a atitude de desprezo, expressa por António Costa na noite eleitoral, não seja também o caminho certo. Eles estão aí, e só a criação de alternativas credíveis travará o crescimento destes partidos - onde o humanismo é visto como blasfémia.

*Editora-executiva-adjunta

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