Opinião

O sonho frente ao arame farpado

O sonho frente ao arame farpado

É possível ficar indiferente perante a imagem de homens, mulheres e crianças do lado de lá de uma fronteira feita de arame farpado?

Pais e mães exaustos, após longa caminhada, sem nada que oferecer aos filhos, a não ser o que chega da escassa ajuda humanitária, cada vez mais dificultada por grupos extremistas que veem nos migrantes todo o mal do Mundo. Pais e mães que visam chegar à Europa, a terra prometida, acreditando que aí poderão encontrar o futuro.

Chegam relatos de pessoas escondidas na floresta, que sobrevivem graças à água dos lagos. Quando acontece o que a todo o custo pretendem evitar, são encaminhados para um hospital - e daí, após convalescença, serão repatriados.

A velha Europa, a que vai do Atlântico aos Urais, onde uma nova guerra fria se forma a cada minuto que passa, usa homens, mulheres e crianças num jogo político em que as vidas daquelas pessoas concretas não tem qualquer valor. A União Europeia, em confronto com a Europa aliada de Putin, acusa a Bielorrússia de criar artificialmente a crise migratória em curso ao atrair migrantes - principalmente do Médio Oriente - e levá-los para a fronteira, prometendo-lhes uma entrada fácil na Polónia, na Lituânia ou na Letónia. Ou seja, na UE, como retaliação pelas sanções impostas ao regime de Lukashenko. Este responde com a ameaça de cortar o fornecimento de gás ao Ocidente.

Os peões deste xadrez são milhares de pessoas a atentar atravessar a qualquer custo a fronteira da Polónia com a Bielorrússia, apesar do forte contingente bélico ali instalado. É para aí que o nosso olhar indiferente se tem virado nos últimos dias. Noutras geografias, outros dramas o mesmo cenário. Aqui bem perto, no norte de França, milhares de seres humanos sonham chegar ao Reino Unido: os mais ousados, ou desesperados, arriscam a vida a atravessar o Canal da Mancha, como outros enfrentam o Mediterrâneo ou as fortes correntes dos rios da Europa central.

Deveríamos, recorrendo a uma réstia de humanidade, pelo menos questionar o que resta a esta gente, quando, se sobreviver ao frio do rigoroso inverno, é devolvida aos lugares de onde fugiu. Afinal, é o que sobra do ideal europeu.

*Editora-executiva-adjunta

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