Opinião

Tempo de combate

É triste o espetáculo a que o país assiste, ano após ano. E não me refiro às labaredas, horas e horas a fio desfilando perante os nossos olhos, e com elas a tragédia de quem perde quase tudo o que reuniu ao longo da vida. Uma tragédia, sem dúvida. Mas mais triste espetáculo é o desfiar de argumentos, o apontar de culpas, o aproveitamento do drama.

Trágico é isto acontecer ainda, ano após ano. O combate foi o mais adequado? Os homens eram os necessários? Eles desfilam em colunas pelo país em direção ao fogo, como um exército. Onde andam os aviões de combate a incêndios que custam milhões ao erário público? As culturas são as adequadas? E os eucaliptos, quem trava o voraz avanço do eucalipto no território? Será a culpa da Justiça? Não prende os incendiários, dizem, embora todos os dias as autoridades reportem detenções. Enfim, um rol infindável de questões - nada de novo, afinal, o país continua a arder.

Este não é o tempo da discussão, este é o tempo de combate às chamas. O tempo de proteger as pessoas e, sobretudo, o tempo de evitar mais incêndios. A discussão deverá ser feita, sem dúvida, mal o outono desponte e com ele as temperaturas amenas.

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Um debate sereno, sem ilusões. Os fogos hão de voltar, cada ano mais violentos. Podemos estar num ponto de não retorno. No final da passada semana, soubemos que a verde Inglaterra se encontrava em situação de seca severa; na Suíça, onde a neve nunca derrete, vemos helicópteros a levar água para dessedentar os animais, e já tínhamos visto o maior rio de Itália, o Pó, completamente seco. E nesta época 662 776 hectares de florestas já foram destruídas pelas chamas na União Europeia, com Portugal no terceiro lugar do pódio, com a Espanha no lugar cimeiro, seguida da Roménia e, não deixa de ser surpreendente, a França em quarto lugar.

Há uma nova realidade, ninguém poderá alegar desconhecimento. É triste, muito triste, ver uma joia da natureza, como a serra da Estrela, área protegida de valor, desaparecer. E, pior ainda, não sabermos se algum dia aquela paisagem voltará a ser o que era. É tempo de, em vez de procurar culpados, delinear estratégias para que, pelo menos, o fogo não apanhe desprevenido o desolado povo das aldeias perdidas do país real.

*Editor-executiva-adjunta

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