Opinião

O partido do Twitter

Vai ser apresentado esta semana um movimento que pretende refundar a Direita para depois a federar.

Afirmam que não se querem substituir aos partidos já existentes, apenas auxilia-los, como na velha história do escuteiro que insiste em ajudar a velhinha a atravessar a rua sem que a velhinha o pretenda. Não consta que Rui Rio ou mesmo Assunção Cristas estejam desejosos da ajuda de Miguel Morgado & Companhia, mas o Mov 5.7 nasceu para ajudar o PSD e o CDS a sair "da crise política e cultural que a Direita atravessa". Não é mais que uma crise de resultados que existe de facto, desde que a Direita ganhou as eleições legislativas, mas a maioria parlamentar se situou à Esquerda.

A Direita vista como eles a entendem, do ponto de vista político e cultural, até já foi a votos, nas autárquicas, aceitando candidaturas e discursos como o de André Ventura. Deu no que deu! Não se julgue, no entanto, que esta Direita alternativa, mais radical, não será capaz de melhores resultados. Há sempre uma conjugação de fatores que os pode levar ao poder. Se tomarem o PSD e forem de novo a votos já com as consequências da próxima crise económica, como seja o aumento de desemprego, e se a justiça não mostrar resultados nos vários casos de corrupção investigados ou em julgamento, também nós podemos ter o nosso espécime de Bolsonaro.

Na apresentação que fazem deste movimento, há uma certeza a que é preciso estar atento: "O perigo que espreita não é menor que a oportunidade que abre". Na síntese das ideias do que é o seu manifesto lá está o ADN do ódio que têm a tudo o que possa chamar-se socialismo. Bem se percebe que alguns estão no PSD e querem liderar este partido social-democrata, apenas como quem toma de assalto um cavalo de Troia, para poder chegar ao poder e mandar às malvas a social-democracia.

Esta Direita, que se quer refundar e federar, também não gosta do presidente que tem e aproveita todas as oportunidades para o criticar. Porquê? Sempre a obsessão do socialismo, acusando Marcelo de levar ao colo o Governo do PS. Raramente se vê, entre eles, um pouco de apreço pelo presidente ter salvo o país de uma crise política de péssimas consequências económicas, e muito vezes se percebe o rancor que sentem por Marcelo não ter dissolvido o Parlamento e despedido a "geringonça".

Eles lá estão, na Internet, nas redes sociais, com especial relevo no Twitter, procurando impor a sua agenda, garantindo que "este é o momento de se fazerem ouvir vozes originais e jovens". Mas o autodenominado presidente do movimento é o deputado que assessorou politicamente Passos Coelho e muito contribuiu para uma viragem à Direita sem precedentes na história do PSD. "Jovens e originais", recusando "a oligarquização da sociedade", lá estão também Alexandre Relvas, António Nogueira Leite ou Maria João Avillez, como fundadores. E eu não estou a classificá-los como bons ou maus, só a fazer notar que este movimento nasce com os vícios de quem tem a pretensão de querer ser diferente, fazendo exatamente da mesma maneira, com os mesmos de sempre.

Onde eles são de facto muito ativos é no Twitter. Quase sempre para atacar os socialismos pelo Mundo fora, como se fossem iguais os governos português e espanhol e as ditaduras na Venezuela ou de Cuba. Quase nunca para apresentar uma ideia de sociedade que vá para além do não ao socialismo, insisto como se o PS não tivesse metido socialismo na gaveta, vai para mais de 40 anos. Quase sempre a ofender, insultar, caluniar quem estiver contra o que defendem. Quase nunca para apresentar soluções para os problemas que surgem amiúde nas sociedades modernas. Agora que vão conhecer a luz do dia, veremos até onde conseguem ir. Adorava estar enganado, mas estou convencido que o que aí vem é uma Direita alternativa, mais ou menos intolerante com a diferença. Uma Direita para quem ter um bom resultado nas legislativas deste ano é ver o PSD perder com estrondo. O que nos diz a história de Sá Carneiro é que ele estaria do outro lado da barricada.

*Jornalista