Opinião

Algo por que lutar

Recentemente, o cartaz do partido mais votado nas eleições europeias dizia "Somos Europa". O interesse e a força apelativa da mensagem reside, evidentemente, na dúvida do destinatário sobre o que se diz, e, em particular, sobre a aproximação de Portugal aos padrões mais avançados da União Europeia em que nos integrámos a partir de 1986.

Pois se sermos Europa fosse um truísmo, algo natural e que não sofre dúvida, não teria sentido proclamá-lo em campanha eleitoral.

Sabe-se que a clivagem entre nós e a Europa tem, no imaginário nacional, mais de dois séculos, desde o tempo dos estrangeirados na Europa ilustrada. Mas para toda uma geração, que acordou para a cidadania pouco depois do 25 de Abril e com a integração europeia, o objetivo coletivo parecia simples: aproximação à média de riqueza e bem-estar dos países da União.

Quando Portugal conquistou a liberdade e a democracia, estávamos muito longe da Europa por esses padrões. Mas depois de 1986, durante alguns anos pareceu que esse objetivo estava ao alcance, e que ia mesmo ser alcançado. Até tudo se esfumar, com novas crises e um prolongado ciclo de divergência, a partir de finais do século passado, a levar de novo muitos jovens a terem de sair do país para conseguir oportunidades de realização.

A evolução atual parece afastar-nos cada vez mais desse objetivo, quer no plano político, quer no económico. Não é certamente com o ataque ao setor privado em resultado da aliança com os seus apoiantes de extrema-esquerda do Governo que Portugal irá recuperar os níveis de crescimento que nos aproximarão da Europa. Mas tal não é razão para duvidar desse objetivo, para culpar a política por estas dúvidas, ou para defender uma crítica geral aos políticos ou ao Estado.

Mais do que uma finalidade ou um destino político ou externo, aquilo por que vale a pena lutar está no meio de nós, e é simples na sua enunciação: a recuperação da convergência no crescimento com a Europa, como instrumento para criar uma sociedade mais próspera e justa, que possa facultar a cada um, em Portugal, oportunidades de livre desenvolvimento da sua personalidade. Haverá com certeza divergências quanto aos meios para o conseguir, mas não se justificam dúvidas sobre o objetivo.

*Professor universitário