A democracia é um sistema de regras que atribui o poder decisivo não a uma pessoa, mas antes à deliberação do povo, que se supõe o exercerá, através do voto, num processo de deliberação razoável. É, porém, vulnerável à demagogia, à exploração das paixões, preconceitos e ignorância para obtenção do apoio popular. Nas últimas semanas assistiu-se a esta contraposição em vários países europeus.
Em Itália, falhou a tentativa de Salvini de fazer prevalecer a popularidade pessoal (também obtida nas redes sociais), em grande parte assente na exploração demagógica de políticas anti-imigração: provocou a demissão do Governo tentando obter eleições que o reforçassem, mas a manobra saiu, felizmente, frustrada pelo entendimento do Movimento Cinco Estrelas e do Partido Democrático.
No Reino Unido, a tentativa de explorar a contraposição entre o "povo" e o "Parlamento" atingiu o cume, com a decisão, por razões táticas, de suspender o Parlamento para tentar evitar a deliberação deste sobre um Brexit sem acordo. O Parlamento reagiu, porém, a tempo, evitando, na pátria da democracia parlamentar, ser posto de parte.
Em Espanha mantém-se o impasse: a recusa de formação de uma coligação por quem pretende liderar o Governo sem ter apoio parlamentar para governar é talvez produto da falta de cultura democrática, para formação negociada de executivos. E a insistência numa "solução à portuguesa" ignora as especificidades que a tornaram possível: a necessidade de obtenção do poder, para sobrevivência política, pelo líder do Partido Socialista, apesar de ter perdido as eleições, e a urgência da extrema-esquerda em afastar do Governo o PSD num momento em que iria começar a ser possível devolver aos cidadãos o produto dos sacrifícios que tiveram de fazer.
E também em Portugal se tem assistido a discursos artificiais, contrariando a prática política real e tentando iludir os eleitores: com a aproximação das eleições, o líder do Partido Socialista, depois de um pacto que lhe permitiu governar durante quatro anos, sem nada dizer, veio agora criticar o Bloco de Esquerda, tentando chegar-se ao centro político.
Que não haja, porém, ilusões: quem não quer a extrema-esquerda no poder, e pretende uma alternativa reformista (que faça as reformas de que o país carece para gerar crescimento e riqueza para os seus cidadãos), não pode votar em quem se alia com ela para obter o poder e se limitar a gerir a conjuntura, e apenas descobre os seus defeitos em período pré-eleitoral.
*Professor universitário
