Opinião

O anúncio e a sua crise

O anúncio e a sua crise

O anúncio, feito pelo chefe de Estado perante uma seleta audiência na Fundação Luso-Americana, de que espreita uma "crise da Direita", tanto pode traduzir real preocupação com o contexto em que poderá vir a ter de exercer as suas elevadas funções, como um ato performativo de política.

Mas, se de real preocupação com uma crise se tratou, não é certamente a sua antecipação em anúncio público que a evita ou resolve - nem podia, portanto, ser essa a intenção. Por outro lado, tem de presumir-se que todas as afirmações e atos de políticos no ativo têm uma intenção performativa de produzir um efeito.

Mais do que constatar a crise - seja da Direita, seja do regime -, importa alertar para a forma de a prevenir, e propor soluções e temas para a contrariar, para debater e servir de base a amplos acordos. Sobretudo quando os desafios com que o país se depara não parecem tender a diminuir nos próximos tempos, pois, descontando incidentes graves, mas apesar de tudo pontuais, não é fácil que se prolongue indefinidamente uma conjuntura (designadamente económica, internacional e nacional) tão benigna como a do início do mandato do atual chefe de Estado.

Os últimos presidentes da República têm tido, em regra, segundos mandatos mais difíceis do que os primeiros. A isso têm conduzido sobretudo as circunstâncias políticas, agravadas por crises económicas ou financeiras.

Compreende-se, por isso, que seja este um receio natural de qualquer presidente que quer "perseverar no seu ser", e recandidatar-se a um segundo mandato. E entende-se, naturalmente, que deva desejar que o sistema político gere naturais soluções alternativas, em vez de maiorias absolutas ou de crises partidárias, ou de todo um setor do espetro partidário. Estas podem facilitar a reeleição - a qual, por muito garantida que pareça estar, é sempre o pressuposto do segundo mandato. Mas deverão dificultar o mandato.

Pelo que, tudo ponderado, preferimos concluir que, desejando evitar a crise, tivemos uma cedência acidental, ocasional e em inglês, a um alter ego comentador.

* PROFESSOR UNIVERSITÁRIO