Opinião

Casas pouco engraçadas

Casas pouco engraçadas

"Era uma casa
Muito engraçada
Não tinha teto
Não tinha nada"

Assim arranca uma música escrita pelo brasileiro Vinicius de Moraes. A letra veio-me à memória quando lia documentos oficiais que dão conta da pobreza e desigualdade registadas em Portugal. A casa é um bem fundamental e, na realidade, todos querem ter um teto, mesmo que estejamos a falar de espaços exíguos. O aspeto tristemente irónico dessa ambição reside no facto de a habitação se tornar depois num sorvedouro sem fim dos parcos rendimentos da "classe trabalhadora", isto é, daqueles que precisam de colocar o seu tempo e esmero ao serviço de terceiros.

Segundo o Inquérito à Situação Financeira das Famílias de 2020, 63,5% dos portugueses que vivem numa casa arrendada preferiam ter comprado e não o fizeram por não terem condições financeiras. Segundo a publicação Quadros de Pessoal 2020, do Ministério do Trabalho, quase 70% dos trabalhadores por conta de outrem ganham entre 635 euros e mil euros brutos por mês. Estamos a falar de um universo superior a três milhões de pessoas, enquanto que os patrões - estatuto que só por si não garante, obviamente, conforto financeiro - são menos de 150 mil. No entanto, não deixa de ser verdade que 10% das famílias mais abastadas detinham 51,2% da riqueza líquida total em 2020, não abundando aqui os trabalhadores por conta de outrem.

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Os afortunados que conseguem pagar um crédito à habitação deparam-se posteriormente com os encargos crescentes devido à inflação. Há que pagar a energia (gás e eletricidade), a água, o IMI, o condomínio, as obras de manutenção, entre outras despesas. Não será por isso de estranhar que muitos agregados não liguem o gás ou se atrasem no pagamento das faturas da energia. Podem até ser casas muito engraçadas, mas os seus habitantes enfrentam um défice qualitativo de conforto.

*Editor-executivo-adjunto

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