Opinião

De Pedro I a Putin último

De Pedro I a Putin último

Numa cerimónia de entrega de prémios no Kremlin, Vladimir Putin deu os parabéns aos cidadãos pelo Dia da Rússia. Aludiu à operação militar na Ucrânia, e exaltou a figura de Pedro I, o Grande, por ter criado um exército e uma marinha "poderosos e invencíveis". A tentativa de colagem à figura e legado daquele que foi o czar de 1682 até à formação do Império Russo, em 1721, é compreensível, mas carece de fundamento.

Um dos maiores méritos reconhecidos a Pedro o Grande foi o de ter modernizado a Rússia. Mau grado os seus ímpetos conquistadores, nomeadamente de toda a Finlândia, a sua abertura a Oeste é indesmentível. Em 1697, organizou uma expedição diplomática à Europa ocidental. O objetivo era o de obter conhecimentos técnicos, militares e náuticos, bem como o de ganhar o apoio das restantes nações europeias para fazer frente ao Império Otomano. Em 1703, a criação da nova capital da Rússia, São Petersburgo, corporizou um elogio ao Ocidente.

Na Rússia de Putin, onde estão os sinais de admiração pelo conhecimento ocidental ou a tentativa de obter proveito das vantagens tecnológicas presentes na União Europeia ou nos Estados Unidos? A tentativa de colagem a Pedro I indicia antes que poderemos estar perante um último Putin, isto é, um derradeiro líder que ainda assenta a sua postura no rancor pelo facto de a URSS - a Grande Rússia - se ter desintegrado de forma inelutável.

Ninguém consegue adivinhar o que se seguirá. Um líder ainda mais bélico e perigoso para os vizinhos do Ocidente? Emmanuel Macron e Olaf Sholz têm razão ao dizer que é importante não humilhar a Rússia em demasia. Porquê? Depois do fim da Guerra Fria, o surgimento de um nacionalista como Putin não foi mero acaso. No entanto, sabemos que é sempre possível eleger um nacionalista ainda mais exacerbado. O que o Ocidente fizer relativamente ao Kremlin atual condicionará as escolhas futuras dos próprios russos.

Editor-executivo-adjunto

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