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Rushdie, o precursor

Salman Rushdie foi um precursor da liberdade de expressão, bem antes da era da Internet permitir que surgissem na ribalta figuras como Julian Assange, jornalista e fundador do Wikileaks, ou Edward Snowden, ex-funcionário da CIA. Os três foram acusados de traição por motivos distintos.

O ataque de arma branca sofrido esta semana por Salman Rushdie, escritor indiano há muito exilado, deveu-se a um decreto do ayatollah Khomeini, então líder supremo do Irão. O autor e todos os envolvidos na publicação do livro "Os versículos satânicos" foram condenados à morte em 1989. Muitos dos atuais menores de 33 anos desconhecem esta história. A obra ficcional provocou grande polémica no mundo islâmico devido à linguagem violenta e obscena e também à utilização de figuras, imagens e instituições sagradas para qualquer muçulmano.

Não surpreende, portanto, que os menores de 33 anos conheçam melhor nomes como Julian Assange, australiano, e Edward Snowden, norte-americano. A história de ambos foi ampliada pelas redes sociais e tornou-os heróis para quem não se verga perante os segredos de Estado, sobretudo aqueles cuja ética e moral é mais do que discutível. Os dois protagonistas em causa saltaram de país em país para fugir a algumas autoridades ocidentais. Rushdie fez o mesmo, mas neste caso para escapar à mão pesada oriental dos convertidos ao islamismo radical. O escritor indiano, que sobreviveu ao atentado sofrido em Nova Iorque, desafiou usos e costumes, rompeu com dogmas e pagou o preço. Assange e Snowden puseram em causa convenções que caracterizam estados supostamente democráticos e abertos. Curiosamente, os três são vistos como traidores. O poder clerical, num caso, e o judicial, nos outros dois, trata-os como inimigos do "status quo". Dentro de 100 anos ou mais, como serão eles classificados pelos historiadores?

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Editor-executivo-adjunto

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