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Pedro Bacelar de Vasconcelos

Mudar o Mundo

Há 45 anos, o espaço político ainda se dividia entre aqueles que queriam mudar o Mundo e os que deploravam qualquer intuito de mudança. A linha de clivagem incluía no bloco progressista, além da social-democracia, vastos setores da democracia cristã. E não falamos apenas de Portugal, da libertação da ditadura e do fim das guerras coloniais em África. Falamos também da imensa simpatia, da solidariedade e do entusiasmo que a Revolução de Abril suscitou na Europa e no Mundo. Quarenta e cinco anos depois, confrontamo-nos com um Mundo efetivamente transformado, mas num sentido dececionante que nos confunde e sobressalta.

Pedro Bacelar de Vasconcelos

A independência do poder judicial, revisitada

1. Salientei aqui, na semana passada, a importância da deliberação do Conselho Superior da Magistratura de exercer o seu poder disciplinar sobre o juiz que se permitiu inscrever considerações profundamente chocantes no teor de uma sentença. De facto, a punição disciplinar de um juiz por causa do teor de uma sentença da sua autoria é caso inédito na nossa história constitucional. Prevalecia até agora o entendimento de que o conteúdo de uma sentença só podia ser apreciado no âmbito do recurso para outra instância judicial, para assegurar a liberdade e a autonomia decisória do juiz que se pretende exclusivamente vinculado à lei.

Pedro Bacelar de Vasconcelos

Para que serve a independência dos juízes?

1. A punição disciplinar de um juiz por causa do teor de uma sentença da sua autoria é um caso inédito na nossa história constitucional. Tal sentença adquiriu triste celebridade devido às considerações preconceituosas e misóginas que o autor se permitiu no acórdão que lavrou sobre um caso de violência doméstica. As expressões utilizadas, tão difundidas que agora nos podemos dispensar de as reproduzir, são gravemente lesivas da dignidade da vítima e contradizem flagrantemente o quadro de princípios e de valores confiados à tutela do poder judicial que, precisamente, justificam a independência que a Constituição lhe reconhece. Por isso, é a própria autoridade do poder judicial que é posta em causa.

Pedro Bacelar de Vasconcelos

Quem tem medo da democracia?

A Constituição não impõe a presença de uma maioria de magistrados no Conselho Superior do Ministério Público. Pelo contrário, atribui à Assembleia da República a escolha da composição mais adequada ao cumprimento da missão e à salvaguarda da autonomia do Ministério Público. É absurdo pretender que apenas uma maioria de magistrados do Ministério Público no Conselho possa assegurar a respetiva autonomia. A autonomia do Ministério Público não é equiparável à independência dos juízes. Contudo, apenas sete de entre os 16 membros do Conselho Superior da Magistratura - cuja composição é diretamente fixada na Constituição - são juízes eleitos pelos seus pares! A maioria é escolhida por órgãos políticos, eleitos pelo povo: o Parlamento e o presidente da República. A colocação, a transferência, a promoção e os poderes disciplinares são competências comuns dos conselhos superiores dos juízes e dos procuradores. Porque ficaria então prejudicada a autonomia do Ministério Público se os respetivos magistrados não dispuserem de maioria absoluta para aprovar as deliberações do seu Conselho? Diz o n.0º 1 do artigo 219.0º da Constituição que compete ao Ministério Público contribuir para a execução da política criminal definida pelos órgãos de soberania, exercer a ação penal, representar o Estado e defender os interesses que a lei determinar. Não carece de grande esforço de hermenêutica constitucional, perceber que o controlo do cumprimento de tais deveres não tem que se restringir ao critério dos profissionais do mesmo ofício.