O Jogo ao Vivo

Opinião

Berlim, 1989

Visitei Berlim, pela primeira vez, pouco tempo depois da queda do Muro. Fui ver. O Muro caíra mas, transposta a ruína, era outro universo que nos aguardava: o outro lado.

Não me refiro apenas ao urbanismo, à arquitetura, à estatuária que, embora emergindo como revelações inesperadas no decurso dessa translação de Oeste para Leste, são sempre - por natureza - vestígio persistente de um qualquer arcaísmo. Refiro-me à cidade, à circulação pedonal e rodoviária, à disciplina que preside à ordenação racional dos espaços, à justaposição das áreas de lazer, de comércio e das zonas residenciais, ao cheiro inconfundível dos escapes dos Trabant, à patente tristeza - porventura apatia - marcada no semblante de pacíficos transeuntes.

Antes de atravessar Berlim, Leste e Oeste, percorri outras ruas em Colónia e Hamburgo. Do ar condicionado das lojas de eletrodomésticos e centros comerciais, saíam personagens estranhas, carregando volumosos embrulhos. Pelo ar, pela indumentária, não pareciam turcos, africanos ou asiáticos. Nem sequer europeus do Sul. Mas não eram seguramente alemães como os outros com que habitualmente nos cruzávamos e julgávamos poder identificar. Eram os alemães de Leste que acorriam aos espaços comerciais do lado ocidental como insetos atraídos pelo brilho das montras e pelo colorido das decorações. Era isto o que procuravam? Era por essa porta subitamente escancarada que se lhes oferecia a liberdade que ansiavam?

Paradoxalmente, só depois de chegar ao outro lado consegui perceber a perturbação e a nostalgia que se apoderava de tantos amigos berlinenses, mas residentes do lado "certo" do Muro que caíra: - Sim, no lugar do Muro abrira-se agora um fosso invisível: que liberdade vamos agora reclamar?

José Mário Branco, 2019

Enquanto escrevia, caiu-me de chofre a notícia absurda da morte de um conterrâneo querido, amigo e companheiro de antiquíssimos combates: José Mário Branco.

Não acredito. A sua ternura, a sua indignação, os seus poemas, o seu absoluto perfeccionismo, enfim, a sua música continua connosco e faz parte de nós.

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Um carinhoso abraço para a Manuela Freitas.

"Andante", "Molto vivace". Força Maestro!

"Eu vou p"ra longe

P"ra muito longe

Onde nos vamos encontrar"

*Deputado e professor de Direito Constitucional

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