Opinião

João Semedo, sétimo dia

João Semedo, sétimo dia

Fez ontem uma semana! Soube da morte do João Semedo pela manhãzinha. Ao fim da tarde, fui à Árvore, no Passeio das Virtudes, para me despedir. Nascemos ambos nesse ano bem distante de 1951. É verdade que ele nasceu alguns meses mais cedo... mas nada que justificasse a antecipação desta cruel despedida. Conhecemo-nos tarde e nunca fomos muito próximos, apesar das muitas causas que partilhamos. A última foi a luta pela despenalização da eutanásia. Seguramente, não terá sido a mais importante, mas a dignidade da morte é a dignidade da vida e a dignidade, sem dúvida, é a qualidade mais importante da espécie humana.

Causas são o fim e o princípio, o efeito e o porquê. É verdade que a Direita tem também as suas causas... incertas e respeitáveis. Mas as causas - com artigo definido, feminino e plural - essas são todas da Esquerda! Entre as causas, a liberdade vem primeiro, mas, como ensinou Bertrand Russel, vai sempre a par da igualdade, porque só na relação com os outros a liberdade se torna valiosa - um bem comum. Contudo, sem a fraternidade, para onde nos conduziriam os afetos e as emoções? A fraternidade, enfim, inspira todas as causas da Esquerda. Como na canção de Sérgio Godinho:

"Só há liberdade a sério quando houver

A paz, o pão

Habitação, saúde,

Educação

(...) Liberdade de mudar e decidir

(...) Quando pertencer ao povo o que o povo produzir.

(...) Quando pertencer ao povo o que o povo produzir".

As causas são inquietação de quem procura a mudança. Porque só quer mudar quem se indigna com aquilo que vê... sem desespero nem resignação. A vida de João Semedo foi um turbilhão de causas. Foi-lhes sempre fiel, também, na sua inconstância. Como explica o poeta, no soneto:

"Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades

Muda-se o ser, muda-se a confiança;

Todo o mundo é composto de mudança,

Tomando sempre novas qualidades".

Inconstância, sim, porque nunca traiu as suas causas nas múltiplas tentativas de acelerar a história pelos atalhos e encruzilhadas da vida. Porque há história e um caminho incerto. E a vontade de mudar. E uma crença no destino, que não há de iludir a nossa esperança. Bem dizia o pintor de Herberto Helder, na "Teoria das Cores": "Era uma vez um pintor que tinha um aquário com um peixe vermelho. Vivia o peixe tranquilamente acompanhado pela sua cor vermelha até que principiou a tornar-se negro a partir de dentro, um nó preto atrás da cor encarnada. (...) Era a lei da metamorfose. Compreendida esta espécie de fidelidade, o artista pintou um peixe amarelo".

O mais valioso património que João Semedo nos legou foi a sua vida. O seu trato gentil e a sua obstinação. A certeza irracional de que a política não é um combate mesquinho, egoísta e interesseiro. A dignidade da luta e do confronto leal. A grandeza dos que não procuram a glória nem o reconhecimento nem sequer a medalha póstuma. Porque ele merecia, no velório compareceram todos - amigos e conhecidos, das artes e das letras, dos ofícios, do poder e da oposição, da Esquerda e da Direita.

Também eu compareci e aqui retomo o verso de Camões, em jeito de despedida:

"O tempo cobre o chão de verde manto,

Que já coberto foi de neve fria,

E em mim converte em choro o doce canto".

E por aqui ficamos, João Semedo. Firmes, para resistir e continuar a luta!


*DEPUTADO E PROFESSOR DE DIREITO CONSTITUCIONAL

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