Opinião

Na Linha do Douro: do Pinhão até ao Pocinho

Na Linha do Douro: do Pinhão até ao Pocinho

Dizem-me que os horários têm sido cumpridos com razoável pontualidade. Assim, é possível sair ao fim da manhã do Pinhão e chegar à Taberna da Julinha - um oásis no meio da desolação em que se transformou a estação do Pocinho - ainda a tempo de um almoço inesquecível, reparador e tranquilo. Basta uma hora de viajem para percorrer os 45 quilómetros de via-férrea que separam a estação do Pinhão da estação do Pocinho - ao longo da margem norte, até à Ponte da Ferradosa, e depois pela margem sul, após a travessia do Douro. É, provavelmente, o mais belo troço da Linha do Douro e, seguramente, um dos mais belos percursos ferroviários do Mundo. A Foz do Tua é a primeira paragem depois da partida do Pinhão. Em vez da foz onde as águas do Tua engrossavam calmamente a corrente do rio Douro, deparamos agora com uma imponente muralha de betão, a montante, e com as respetivas infraestruturas: a barragem do Tua! O caminho de ferro, parcialmente submerso, subsiste na maior parte do seu curso e parece economicamente rentável para a iniciativa privada: o interesse público preferiu a hidroelétrica à Linha do Tua... e desinteressou-se do resto da paisagem e das respetivas populações.

O troço ferroviário do Pinhão ao Pocinho está ali, desde o ano de 1887, à nossa disposição. É verdade que, há 130 anos, era ainda possível encontrar destinos alternativos: da Foz do Tua até Mirandela ou desde o Pocinho até Barca d"Alva. E de Barca d"Alva chegava-se a Salamanca, a Paris e ao Mundo. O "Sud Expresso", no século XIX, chegou a utilizar esta linha... para poupar 5 horas do caminho até Lisboa aos turistas austríacos, franceses ou alemães que se dirigiam para o Estoril. Pela Linha do Sabor, há 30 anos, ainda se chegava a Miranda do Douro. E pela Linha do Tua, ia-se de Mirandela até Bragança. Hoje, no aeródromo de Bragança, os passageiros esperam uma ou duas horas pelos passageiros do aeródromo de Vila Real (quando aqui há demasiado nevoeiro para "descolar") e aceleram pela A4 para embarcarem em Bragança para conseguirem, enfim, chegar todos ao Terreiro do Paço, ainda que com algum atraso, a tempo das reuniões da manhã!

A Foz do Tua é o primeiro apeadeiro depois do Pinhão. Nos escassos 15 minutos que as decrépitas automotoras espanholas demoram a vencer os quase 13 quilómetros que separam a Foz do Pinhão da Foz do Tua, recomenda-se a via ferroviária em detrimento da via fluvial, porque é muito elevada a probabilidade de viajar mais depressa e de borla: o cobrador da CP, com a bilheteira do Pinhão fechada, não consegue emitir bilhetes para a maior parte dos passageiros que fazem este percurso, sobretudo no verão, com as avalanchas de turistas de bom gosto e bem informados. Depois do Tua, continua o deslumbramento e o regalo inigualável para os olhos dos passantes: sobra a Alegria, a Ferradosa, Vargelas, o Vesúvio e, imediatamente antes do Pocinho, o apeadeiro de Freixo de Numão. O mítico Cachão da Valeira - uma prodigiosa cascata localizada 6 quilómetros a montante da Foz do Tua e que constituía o maior obstáculo subsistente à navegabilidade do Douro - mesmo depois de destruído no final do século XVIII, não poupou a morte ao Barão de Forrester, no naufrágio de que se salvou a própria D. Antónia, a Ferreirinha, assim perpetuada nos rótulos do Vinho do Porto. Parcialmente submersa pela barragem do mesmo nome, em 1976, a garganta da Valeira assinala ainda vigorosamente a paisagem dramática do Douro ancestral.

E chegamos ao terminal ferroviário do Pocinho, amputado das antigas ligações internacionais e regionais, enquadrado por uma ponte inútil e por uma locomotiva a vapor arruinada, estacionada numa das linhas agora sem préstimo, sem piedade nem consideração. O que nos salva, é o tomate com sal da Horta da Vilariça, os espargos selvagens e o vinho tinto da casa refrescado à moda duriense na Taberna da Julinha, para mitigar as mágoas.

*DEPUTADO E PROFESSOR DE DIREITO CONSTITUCIONAL

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