Opinião

Presidentes, para quê?

Presidentes, para quê?

Lá para os fins de janeiro vamos ter eleições para a Presidência da República. O atual titular vai tentar a reeleição.

Se o fizer, como previsível, importa avaliar o que fez no exercício das funções para que foi eleito e ponderar se é conveniente dar-lhe a oportunidade de um segundo mandato, sabendo nós que o segundo mandato de cada um dos quatro presidentes que o antecederam sempre foi diverso do primeiro.

Por outras palavras, um eventual segundo mandato de Marcelo Rebelo de Sousa, muito provavelmente, não iria ser semelhante ao que agora termina, sempre marcado pelo diálogo e a bonomia, conciliador perante todo o tipo de conflitos, prudente, contemporizador e campeão da estabilidade institucional. Não... O prazo de validade deste modelo vai esgotar-se no último dia do mandato.

Foi assim com Ramalho Eanes, com Mário Soares, com Jorge Sampaio e com Cavaco Silva. Com Marcelo seria diferente? Iludem-se aqueles que acreditam que um conservador da Direita democrática, como o atual presidente, alguma vez renunciaria aos poderes nucleares do seu estatuto constitucional - e à chamada "magistratura de influência"! - para derrubar o Governo dos seus adversários políticos de sempre e convocar eleições antecipadas, logo que oportuno!

Apesar de pertinente, a interpretação dos fenómenos políticos não se esgota na psicologia e nos jogos de poder que, aliás, sempre fascinaram o presidente. Ao longo destes cinco anos, o seu desempenho adotou um estilo paternal, omnipresente e de conteúdo predominantemente técnico.

Não houve setor da vida social que não tivesse sido objeto de análise e comentário especializado pelo professor brilhante e o reputado jurista que é titular do cargo. Com essa máscara, o presidente pode partilhar todos os sucessos e distanciar-se de todos os infortúnios que afetam o país, a Europa e o Mundo.

Perante uma conjuntura perversa que ameaça o planeta e o futuro das gerações mais jovens, que compromete a confiança nas instituições democráticas e mina a solidariedade europeia, precisamos de uma presidência independente dos interesses instalados que nos conduziram a este pântano, de uma voz forte e destemida, de uma vontade resoluta que aponte caminhos novos e nos devolva a esperança.

PUB

Não vejo este presidente talhado para tal missão, mas há uma mulher com provas dadas na solidariedade com a "causa perdida" - dizia-se! - do povo de Timor-Leste, no combate infatigável contra a corrupção, na exigência de respostas para as alterações climáticas, na defesa da democracia e da coesão social, dentro e fora de portas.

Ana Gomes demonstrou em todas as funções institucionais que assumiu uma notável coerência, ousadia e fidelidade às causas concretas que motivam a sua intervenção pública. É esta a alternativa que a República reclama!

*Deputado e professor de Direito Constitucional

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG