Opinião

A prenda que ninguém pediu

A prenda que ninguém pediu

Longe de mim estragar-lhe o Natal, caro leitor. Mas é nos dias de maior júbilo e comunhão que devemos olhar para tudo em perspetiva. Proponho-lhe que, quando estiver à mesa a comer o cabrito ou o farrapo-velho, conte as pessoas à sua volta.

Vamos imaginar que são 10. E que são todos adultos integrados no mercado de trabalho e sócios vitalícios da máquina contributiva do Estado. Há uma notícia para lhes comunicar. Mas talvez seja mais prudente fazê-lo antes de começarem a avançar (de novo) para as rabanadas e os sonhos. Então é assim: cada um desses amigos ou familiares desembolsou, em dez anos, qualquer coisa como 1800 euros para salvar a Banca. Sim, é melhor ir buscar o vinho do Porto para empurrar.

As contas certas são estas: de 2008 a 2018, de acordo com dados atualizados há dias pelo Tribunal de Contas, o Estado português injetou 18 mil milhões de euros em bancos geridos por impunes trapaceiros que o regime acarinhou nos dias bons e continuou a acarinhar nos dias maus. Esta é a prenda da década para o país. Uma prenda que ninguém quis. Que ninguém pediu. Um presente envenenado que, ainda hoje, quase 12 anos volvidos sobre o primeiro assalto às contas públicas no âmbito das operações de ancoragem do Novo Banco e do antigo BES, do BPN e das recapitalizações da Caixa Geral de Depósitos, continua a acumular cadáveres nas fileiras obscuras do Orçamento do Estado.

Ninguém, pelo menos ninguém que preze a honestidade, é capaz de garantir que estaríamos melhor hoje se tivéssemos deixado cair os bancos e os banqueiros. Segurámos ambos. Mas a paga veio com juros e forrada a ironia. Nunca como agora a Banca cobrou tantas taxas, nunca como agora despediu tantos, nunca como agora esteve tão fisicamente distante dos clientes. Tão amargamente divorciada do país que, empenhando os dedos e os anéis, salvou os maus, mas capitalizou todos.

*Diretor-adjunto

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